DO INTENSO E DO SUSPENSO
I
Eu seguia-te nos mistérios, nesse enigma que és tu.
Bebia da tua presença o arrebatamento, a constância da
dor, a tristeza de quem muito contempla e nada ou
pouco faz. Nada disto se explica. Por isso sei que por
mais que viva haverá sempre encanto entre nós. Uma
ternura indizível, desejo nú e frio.
II
Eu seguia-te. Achava que isto de estar apaixonada era
coisa de partir à descoberta do que somos e não somos
e no que nos tornamos só porque um sorriso nos prende
e a vida se nos solta. "Adoro-te"- dizias, mergulhando
o rosto no meu cabelo ao sol. E eu ria, achava
estranho que alguém me pudesse dizer isso. Adoro-te.
Sussurro, protecção. Era tudo tão bom quando o meu
corpo molhado caía, exausto, na toalha. Tudo tão leve,
dourado, trazendo à memória os instantes de um
segredo. Lábios colados à pele, pela sombra recortada
das árvores.
III
O segredo eras tu. Guardava-te como partitura
preciosa, inacessível. Tremia se me tocavas, se
suspeitava que tudo era possível. Ainda hoje não
resisto a perguntar: que domínio aquele? Que poder?
Como então, é-me difícil encontrar resposta lógica e
verosímil. Talvez seja menos penoso continuar a achar
que fixar-te mais de 5 segundos era um esforço
invariável para atingir um limite, o infinito. Esse
fascínio que exerces rouba ao mundo real, quase
aniquila, abandona e segue viagem. Sempre foi assim.
De cada vez que desejei ter força para ser infinito.
Prolongar-me em ti dizendo "Vem..."
de Anna Tomás
Gostei muito Anne. Continua a publicar, aqui neste café amigo, ou onde quizeres. O meu cantinho também tem espaço para ti e para todos os que usam as palavras sem as usurpar. Porque as palavras são livres. Livres para se juntarem em poemas lindos, como tu e o joão fazem.
Um abraço
Afixado por: Guida em novembro 20, 2003 06:17 PM