novembro 28, 2003

Crepúsculo

Cai a tarde, dentro e fora,
E agora, ao cair da tarde,
frio, caminho, por fora,
face estranha à tarde que arde
na hora que cai agora.
Adeus, tarde. Vou-me embora
antes que seja mais tarde.
Não quero ser leão covarde:
quando tem dentes, devora,
quando os não tem, geme e chora,
anjo falso que se inflora
à hora em que cai a tarde.
Oh não quero! Vou-me embora
antes que seja mais tarde.
Para quê sentir agora
se agora é a hora da tarde?
Não há nada que nos guarde,
nem defenda nem resguarde
do que na hora é outrora.
Chora, chora, chora, chora.
Não chores mais. Vai-te embora
antes que seja mais tarde.

António Gedeão, Movimento Perpétuo - 1956


enviado pela amiga Gelatina, que enviou assim que leu o poema anterior... bigada pelo apoio...

Publicado por D_Quixote em novembro 28, 2003 12:20 AM
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