janeiro 16, 2004

Crónicas do Nada - mundos de vidro

Sabes? ...passei por perto no outro dia, algo me puxou para o mesmo sitio onde repetidamente tantas vezes já fui. Segui o coração como um prego atraído na força quase mágica do magnetismo de um íman... pestanejo... esfrego os olhos... dou comigo na frente da montra do sítio onde trabalhas. O casaco negro que me abriga confunde-me com as sombras da noite, o que me permite observar-te recatado, furtivo, incógnito, quase invisível... (nada de novo portanto na nossa atípica relação...)

Lá dentro trabalhas, flutuas entre luzes e brilho de tarefa em tarefa, martelas no computador como um pianista concentrado, e o irritante barulho plástico delas torna-se música etérea para mim...
Nem reparas em mim, fico ali parado largos minutos, colado ao vidro, quieto, bebendo todos os teus movimentos como néctar divino, do licor que me embriaga, no êxtase da alegria até à agonia da ressaca.
Sinto-me uma criança pequena, colada à montra de uma loja de brinquedos em vésperas de Natal, de cabeça cheia de sonhos e olhos no que não posso ter.

Sempre assim foi... não? Tu como uma pequena boneca brilhante numa redoma de vidro e luz, como um pisa papeis cheio de brilhantes a esvoaçar... tu nesse pequeno mundo tão longe do meu... eu com as minhas mãos fortes e grotescas de volta dessa esfera, protegendo-te de tudo, tocando sempre e apenas no vidro frio que te cobre a afasta de mim. Querendo sempre fazer parte desse teu mundo bonito, nunca percebendo, estúpido como sou, que é lá que pertences e eu cá fora, longe de ti. Os nossos mundos são diferentes, e embora as barreiras que nos separem sejam invisíveis, vidros frios e desumanos... o teu mundo não é o meu, nunca será...

"- Merda... está frio cá fora... tanto que já deliro... só posso estar a delirar estando aqui..."

Afasto-me da montra, entro pela porta e dirijo-me a ti, movo-me como um criminoso audaz perpetrando o assalto da sua vida... levantas os olhos serenamente, arquejas as sobrancelhas de espanto e... sorris... sim... o teu sorriso novamente...
" - Olá..." (respondo)
" - Já tenho o que vinha buscar... obrigado..." (e parto)


por João Natal

Publicado por D_Quixote em janeiro 16, 2004 01:22 AM
Comentários

Obrigada, D_Quixote. Também eu já tenho o que vinha buscar!

Afixado por: sara em janeiro 16, 2004 09:16 AM

Que cantinho lindo, este. Se nos podessemos contentar sempre com algo tão precioso como um sorriso... seríamos sem dúvidas mais felizes.

Afixado por: Marta em janeiro 16, 2004 12:02 PM

Nem sempre temos aquilo que vamos buscar, mas quando somos recebidos com um sorriso, já justifica a viagem, génial como sempre... um abraço!

Afixado por: João Pedro em janeiro 16, 2004 02:34 PM

ahhhhhhhhhhtchim..... é lindo!!!! fui ás lágrimas.

Afixado por: atipica em janeiro 16, 2004 04:47 PM

eu é que vos agradeço malta pela assiduidade com que passam por aqui para tomar o cafézinho...

tão todos bem sentados? o som está de agrado?

Afixado por: D_Quixote em janeiro 16, 2004 06:51 PM

Não lembraria, nem ao Diabo, essa de seguir «o coração como um prego». E eu gostei dessa expressão que tem tanto de concreto, como de abstracto. Não é fácil fazer a mistura das duas coias. Há, houve, um poeta que morreu -foi assassinado em Bruxelas aos 37 anos de idade - jovem, o Luis Miguel Nava, que foi rei e senhor na utilização simultânea do abstracto e do concreto.
Continuá. É um bom texto.

Afixado por: José Félix em janeiro 16, 2004 08:52 PM

Sempre bonito e profundo o seu site.É sempre um prazer voltar aqui...

Afixado por: Valeria Mendez em janeiro 17, 2004 04:28 AM

Excelente...

Afixado por: Teresa Sousa em janeiro 17, 2004 01:27 PM

Venho por este meio deixar um abraço ao proprietário e dizer-lhe que a qualidade do café está à vista. Parabéns!!!

Afixado por: Vítor em janeiro 17, 2004 03:49 PM

Vivam os sorrisos que iluminam a alma!

Afixado por: AComadre em janeiro 17, 2004 04:50 PM

:D

Afixado por: Xocolaty em janeiro 17, 2004 08:08 PM