janeiro 19, 2004

"E a Morte Perderá o seu Domínio"

Hoje venho afixar um poema que já afixei, não por perguiça, ou por erro... mas porque sim... porque a vida assim o quer! Quando o afixei a vida era diferente do que é agora e, talvez agora mais, ele se justifique e vocês o apreciem mais... eu sei que eu o faço...

A parte mais cruel de envelhecer, não são as rugas que nos cobrem a face, nem o cabelo branco que nos aparece, não são as dores dos ossos, a barriguinha que cresce, não é nada disso... O cruel de envelhecer, a ironia, a mágoa, o sofrimento, é irmos vendo partir aqueles que mais amamos, é vermos as pessoas importantes da nossa vida morrer...

Hoje acordei com um telefonema, o meu tio Albino, irmão da minha mãe, tinha acabado de falecer. Era um homem bom, de alma generosa, honesto e trabalhador... teve contudo uma vida triste, marcada por um casamento triste com uma mulher que não o sabia amar ou fazer feliz mas a quem ele foi fiel até o fim dos seus dias, e marcada por uns filhos pródigos, ingratos, que sempre se serviram dele, e da ingenuidade e pureza daquele homem que os defendia com todo o amor do mundo, contido num coração de pai...
Era meu tio, mas mais do que isso, era um bom amigo... um dos melhores (para mim e para o meu irmão com quem passava infindaveis tardes a jogar cartas).

Dias como hoje são dias tristes, dias de perda... mas tambem dias de reflexão sobre o que somos e para onde vamos... deixo-vos com um poema que leio sempre que perco alguem, e com toda a minha dor deste momento...

amigos... o café fica por vossa conta... até breve...

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.


de Dylan Thomas

Onde estiveres tio, eu sei que estás bem, porque o mereces... um grande abraço meu...

Publicado por D_Quixote em janeiro 19, 2004 01:15 AM
Comentários

Compreendo o que sentes.
No entanto a vida é assim. A morte faz parte desta vida tão curta. Para os que partem, que descansem em paz; para os que ficam, prevalecem as lembranças dos dias bons e dos momentos irrepetiveis passados ao lado da pessoa que nos deixa porque assim tem de ser. Fica a saudade.

Afixado por: carlos em janeiro 19, 2004 02:38 AM

Oiê!!!
Passei para desejar uma boa semana. Cuide-se...
Beijos.

Afixado por: Karen em janeiro 19, 2004 06:54 AM

A vida é assim feita de encontros, desencontros e de perdas, mas fica em nós o que vivemos, o que soubemos aproveitar, o bom que demos e que recebemos.

Afixado por: Marta em janeiro 19, 2004 09:47 AM

Nuno, o meu sincero abraço. Sei o que custa. Outro abraço forte para ti...

Afixado por: sara em janeiro 19, 2004 09:50 AM

dóidói, não é?

um beijinho em ti Nuno.
quando voltares senta aqui na 'minha' mesa que eu vou atrás do balcão e preparo-te um chá quentinho de aquecer almas.

conversamos acerca do Tio Albino, contas a estórias dele, todas, e repetes algumas.

lembramos o senhor de la mancha e devagar se volta à vida... com mais um vazio.

outro beijinho,

e um xi também.

Afixado por: margarete em janeiro 19, 2004 11:04 AM

faço um bolo da pão ralado. é muito bom. vai bem com os dias de inverno.
inverno por dentro e por fora.

e ofereço-te um sorriso.

Afixado por: margarete em janeiro 19, 2004 11:05 AM

vou... com uma pontinha de tristeza, mas não esqueço que tens aqui uma velinha acesa para o teu Tio Albino.

Afixado por: margarete em janeiro 19, 2004 11:06 AM

Algo aqui dentro me diz que o tio Albino está bem... foi uma boa alma na vida terrena e sê-lo-á, com toda a certeza, no mundo espiritual...

Afixado por: Teresa Sousa em janeiro 19, 2004 11:58 AM

A perda de alguém é sempre doloroso, sendo definitiva e sendo de uma pessoa especial doi ainda mais. As palavras não chegam para te dizer que sinto o que estas a sentir, sei pq senti recentemente uma perda semelhante...
Mas a vida continua, e o melhor que podes guardar são os momentos passados na sua companhia e as lições que certamente deixou. Um abraço e força.

Afixado por: Jose em janeiro 19, 2004 03:37 PM

Nuno,
Quando uma pessoa parte e deixa saudade, não morre nunca, porque na nossa memória sempre que quizermos podemos vê-la e falar com ela.
Força rapaz. Beijinhos.

Afixado por: Maria Emília em janeiro 19, 2004 05:20 PM

Um abraço...

Afixado por: AComadre em janeiro 19, 2004 05:38 PM

obrigado amigos pelo vosso testemunho, são vocês que contribuem para que estes dias sejam menos maus..

um grande abraço a todos

Afixado por: D_Quixote em janeiro 19, 2004 06:43 PM

Nuno,
Muitas beijotitas desta tua amiga que compreende a dor pela qual estás a passar. Infelizmente, esta é já a segunda vez que te acompanho em situação de dor. Espero estar sempre aqui e que tu sintas o meu abraço.

Afixado por: Tita Geraldes em janeiro 19, 2004 08:23 PM

Hugs do Bug.

Afixado por: Bichinho-de-Conta em janeiro 19, 2004 08:25 PM

um abraço Nuno, um dia estarás feliz e lembrar-te -ás do teu tio.

Afixado por: borges em janeiro 19, 2004 08:27 PM