Paro o carro junto à cabine telefónica perto de tua casa, chuvisca intensamente lá fora. Saio e tranco as portas, subindo as golas do sobretudo para minimizar o frio. Afundo as mãos trémulas nos bolsos e escavaco à procura de moedas para te ligar.
Era suposto apanhar-te ao entrares para casa, mas o maldito transito reteve-me longe e cheguei atrasado a ti como a chego a tudo na vida. Agora só me resta ligar-te...
Espero junto à cabine, duas raparigas muito novas fazem chamadas curtas e risonhas a amigos coloridos, sorriem e coram à medida que se embrulham na conversa, completamente alheias à chuva que cai e a mim que espero pela minha vez...
Finalmente desligam, aqueles minutos pareciam uma eternidade, mas a necessidade de ouvir a tua voz era demasiado grande para eu ter desistido de te ligar. Digito o teu numero, espero... ouço o sinal de chamada misturado com o som do vento que investe contra mim. Ninguém atende... (não percebo... já devias estar em casa... penso)... pouso o auscultador, primo o reedial, aguardo de novo... o telefone vai tocando continuamente sem que ninguém atenda.
Atiro de vez com o auscultador para o lugar dele, recolho as moedas e afasto-me desiludido do telefone mergulhando as mãos profundamente nos bolsos.
Deambulo à deriva até chegar debaixo da tua janela, olho para cima e vejo luz, a persiana entreaberta permite-me vislumbrar o teu vulto que se torna perceptível no contraste. Ali fico largos minutos quieto...alheio aos carros que passam, às pessoas que olham, que comentam, continuo estático de cabeça erguida, olhos fixos num vulto de uma janela, num sexto andar, numa rua molhada do Porto em pleno Novembro.
Já nem reparo na chuva que aumentara de intensidade, agora molha-me o cabelo, encharca-me a roupa, bate-me na face fria e desliza no meu rosto, misturando-se numa fusão perfeita com as lágrimas que verto.
Continuamos desencontrados amor...
João Natal
23/01/04

InHiding by Monika Szymanska
Estás no bom caminho. Disso não tenho dúvidas. Os desencontros são para continuar? É que... apetece ler mais.
:)***
Que escrita envolvente, que me dá um nó na garganta e por pouco me faz chorar contigo.
Afixado por: Marta em janeiro 24, 2004 08:53 PMChuva...eu adoro chuva! A chuva torna qualquer momento, mágico! O quente inferno da alma e as gotas frias no rosto...é sem dúvida,...mágico!
Afixado por: Roxy em janeiro 24, 2004 09:25 PMSim Sandra... são para continuar, acabaram-se os ensaios e há lugar a um novo espaço aqui... as crónicas de um homem vazio serão as minhas pequenas investidas no mundo da prosa... depois quando houver "pachorra" e tempo... compilarei todas...
a todos os outros.. vai um café?
Afixado por: D_Quixote em janeiro 25, 2004 02:42 PMEstou a gostar desta tua fase! Muito!
Continua a encantar-nos...
Afixado por: Xocolaty em janeiro 25, 2004 11:03 PMEntão não vai? Mas com adoçante que estou de dieta!
Afixado por: AComadre em janeiro 25, 2004 11:04 PMquando comecei a ler esta crónica a luz, a cor, lembrou me logo do Porto
parabéns, a tua crónica é cinzenta como a pedra da Invicta mas igualmente bonita