Hoje decidi ir de novo esperar-te. Estacionei o meu carro perto do teu e saí, olhei em volta perscrutando em redor, vigilante, atento. Segui ligeiro até à montra da loja onde trabalhas, o teu pequeno aquário. O frio é o habitual nestes dias ingratos de Janeiro, belisca-me a pele, incomoda, abotoo o casaco para me agasalhar melhor.
Tu trabalhas serena, não tens muito que fazer hoje, estás sorridente com os olhos colados no monitor… deves estar a ver algum e-mail engraçado, ou a ler algo de agradável. Fico quieto no frio do exterior, no escuro da rua, vou repartindo a atenção pelo material em exposição na montra e a empregada risonha atrás dela. Não consigo evitar o meu próprio sorriso… tu olhas… o teu sorriso aumenta… o meu também!
“ – Olá”… aceno trémulo.
Dou meia volta e regresso ao carro, aproveito para fumar um cigarro, não quero que ela veja que agora fumo, que adquiri mais um pequeno tique, fruto da crescente esquizofrenia derivada da sua ausência, seja pela minha fraqueza de espírito, seja pela apenas fútil tentativa de lhe chamar a atenção… de lhe mostrar que não estou bem. Seja como for… prefiro que ela não me veja…
Espero meia hora pela hora de saída, dirijo-me à mesma esquina de sempre, aquela ampla, iluminada pela agência do Barclays, enfeitada de semáforos, a nossa esquina… sabes?...
Ali aguardo, espero pacientemente a tua vinda, até que se torna perceptível no escuro do cimo da rua as linhas inconfundíveis do teu vulto. “ -És tu…” Penso…
“ – Olá!” Dizes…
E o teu sorriso suplanta a iluminação da rua. Acompanho-te até ao carro, incrível o que eu não faço por dois minutos junto a ti. Pelo caminho apenas consigo dizer-te isto:
“ – Por vezes sinto-me confuso, não sei se continuo aqui por uma questão de persistência, ou se serei apenas lento de raciocínio, pois já me devia ter apercebido que não estamos a ir a lado nenhum…” Estas ultimas palavras sufocaram e acabaram por sair de forma muda e imperceptível… julgo que ela não as ouviu…
Riu-se apenas e retorquiu… “ – Só podes estar maluquinho para estares aqui ao frio assim…” Calei-me outra vez cobarde…
Ajoelhei-me aos pés dela e disse “ – Fica comigo!”
Ela sorriu e foi embora…
de João Natal
27/01/04

silence by Cenk Soysal
muito bom! mas talvez tenha ido embora apenas com medo de responder...
Afixado por: pedro em janeiro 28, 2004 03:46 AMQuando não gostamos de alguém conseguimos ser assim, maus, frios e [in]conscientes. Quando gostamos conseguimos ser tontos, doces e [in]conscientes.
Afixado por: sara em janeiro 28, 2004 09:06 AMOlá. Se já gostava dos teus poemas, estou a descobrir encantada a tua prosa. Também tenho alguma prosa escrita. Assim, pequenos textos. Não sei se tão encantadores como os teus. Permite-me que te envie alguns por mail, para que opines sobre eles.
Um abraço
Afixado por: Guida em janeiro 28, 2004 09:43 AMAs portas do café estão sempre abertas à vossa poesia e à vossa prosa... o café é vosso, eu só sirvo os cafézinhos! Manda que será um prazer afixar...
Pedro... medo de responder... talvez... ou medo de ter que escolher... ter que optar... isso assusta muita gente e neste caso tambem assustava a personagem deste conto.
Sara... o amor será sempre um jogo cruel... um bailado por vezes de desencontros...
Amigos... café para todos?
Afixado por: D_Quixote em janeiro 28, 2004 10:07 AMAmar é tudo e nada... muito e pouco, enche-nos, preenche-nos e esvazia-nos!
Doi como nada e contudo sabe tão bem...
Afixado por: Xocolaty em janeiro 28, 2004 09:11 PMBelo texto.
Enqunto lia, consegui imaginar pessoas a representar esta cena... sabes que a acho muito real, muito verdadeira e algo que se repete em quase todos os finais de relações...
O admitir o fim de uma relação é algo de muito complicado, principalmente quando aos olhos da outra pessoa tudo esta bem, tudo ja passou...
É como dizes, é um jogo em que por vezes todos ganham, outras vezes todos perdem, outras ainda um perde mais que o outro, com uma unica certeza... não ha empates. Mais uma vez, belo texto. Café para mim, pode ser curto :-)
descobri o teu blog por ...e sem demoras adiconei-te, fiquei agarrada à história que contaste...tão bela e no entanto tão triste. bela porque mexe com os sentimentos mais lindos e triste porque não há nada pior do que não saber, ou saber e não ser o que se esperava.continua ;)
Afixado por: sophiee em janeiro 29, 2004 01:04 AMFinal abrupto ou desenlace inevitável que apenas "ele" não queria ver, de facto?
Continua ;)
Afixado por: Sandra em janeiro 29, 2004 07:10 AMConfesso-me surpreendido por haver gente a gostar do que escrevo, sobretudo em prosa, é todo um mundo novo que começo a explorar... inspiração não falta, o que nunca sobra mesmo muito é o tempo...
O final não é abrupto Sandra... é aguardado como a morte num doente crónico... ele, apesar de tudo e por muito que o negue, sabe à partida que ruma a um nada... e por isso mesmo até o comenta a caminho do carro...
é bom ver as mesas do café assim repletas... logo à noite vou dar uma arrumação nestas cadeiras porque me começa a faltar espaço...
ora... saíase cafézinho quente... (hoje com bolachinhas de chocolate a acompanhar)
Afixado por: Nuno em janeiro 29, 2004 10:29 AMsaia-se (errata)
Afixado por: Nuno em janeiro 29, 2004 10:30 AMHá um tema recorrente de obsessão e amor não correspondido em alguns dos posts publicados no Poetry Cafe que me deixam inquieto. É bom quando um texto nos toca ou incomoda: é sinal que o autor está a fazer um bom trabalho. Parabéns!
PS: Gostei do pormenor da agência do Barclays... LOL!
Afixado por: Fernando em janeiro 29, 2004 12:30 PMA minha referência ao "abrupto" tem tb a ver com a forma que apresentas-te o desfecho em termos escritos.
:)**
Afixado por: Sandra em janeiro 29, 2004 07:37 PMEscrevo quase como sinto, num plano onírico... e como os sonhos acabam tamebm a realidade dele acaba assim... de forma repentina, deixando semrpe muito em aberto, algo desejado por obter... como um suspiro...
Afixado por: Nuno em janeiro 29, 2004 07:57 PM