- A sério, nao há problema. Vem... se quiseres.
Eu segui-o, no rasto da noite. O convite tinha sido providencial, tendo em conta que esquecera as chaves do colegio no quarto e que passava das 5 da manhã. A ideia nao deixava de ser assustadora mas nao julgava estar mais protegida noutro lugar senão naqueles desconhecidos metros quadrados a que ele pudesse chamar casa, para lá do velho gueto.
[ Quando os teus olhos se fecharam encostei-me aos desenhos na parede como se esperasse transformar-me num deles, numa tua obra de arte. Também eu, ali, te tinha inventado, imaginando que nao haveria mais ninguém. Mais nada. Nem antes nem depois. Ou para além de nos. ]
O amanha que se seguiu nascera para ser diferente. Entao fui absolutamente feliz. Estupidamente comovida. Ingénua como sempre. Agora não sei bem porque, aprendi a relativizar melhor os acontecimentos. Mas no momento em que virei costas àquele espaço, apesar do gradual afastamento, todas as imagens reproduziram-se na minha mente, a uma velocidade estonteante, de droga, em “flash” de fotografia. Uma prancha de snowboard a um canto, o instável monte de cds numa prateleira, um enorme caderno de esboços. Enfim as paredes, pulsando de criação, na penumbra. Tocadas pela madrugada, através das portadas verdes das janelas. Pinceladas de Cézanne, repentinas. E aquela cama, que era sua, que não me deixara dormir, com medo que descobrissemos que tudo aquilo era sonho. Nunca me sentira tão dentro de alguém, tao presa à ternura. E à ilusão que me perseguia – ou que eu fazia o possivel e o impossivel por perseguir. ERA A PRIMEIRA VEZ!
Naquela manha não o acordei. Desiquilibraria certamente o equilibrio da escultura. Vim embora, sorrindo a cada gesto cauteloso, delicado, para não despertar sentidos adormecidos. (Onde tinha deixado o casaco?). Sorrindo e ainda tremendo, a cada ultimo olhar a um vulto estendido (E onde se metera o Randazzo? Ia jurar que fazia parte do pequeno grupo que acampara ali horas antes...!) Vim embora, retomando o fio das sensações: sorria, portanto; tremia. E pensava no quanto custa verbalizar as malditas emoções a quem no-las cria.
Ficamos sempre por dentro da experiência, nao queremos sair, vir à tona. Como loucos, poetas em delirio, hipnotizados em fuga, conscientes de que algo inevitavelmente se perde, sorrimos durante todo o caminho de regresso às palavras. Ao colegio, onde uma qualquer amiga, expectante, nos enche de perguntas. A começar por...
- Onde é que estiveste até agora?
[ Dois anos depois sei que existira outra estrada onde – talvez inesperadamente – reconheça teu rosto. ]
de Anna Tomás, enviado pela própria.
(obrigado Anna por este belo pedaço de prosa)