fevereiro 06, 2004

Crónicas do nada - Hoje não te vi

Hoje não te vi. Meti-me no carro com vontade de ir ter contigo. Arranquei rapidamente e mergulhei no transito. Acabei por dar comigo parado num sinal verde, estático, paralisado. O meu olhar fitava o horizonte desfocado e borratado das luzes citadinas, quase inconsciente de quem era e de onde estava...

- "É melhor não!" Pensei... estacionei em segunda fila com os "quatro piscas ligados" e fiquei a pensar em ti. Não te quero sufocar... sei que o tempo escasseia até ires embora e que me apetecia gastar todo o tempo que nos resta juntos mas... tu tens a tua liberdade, és uma mulher muito independente, firme, decidida. E eu jamais vou querer interferir nisso, jamais vou ser uma corrente que te prende ao chão quando só queres mesmo é voar. É essa liberdade que faz a tua força que tanto admiro, é essa independencia que te faz a mulher que eu amo... não te mudaria um fio de cabelo...

Amar-te é mesmo isso... abdicar de posses, de costumes, de convenções... contentar-me com o teu sorriso ou a feliz sorte de um beijo, encantar-me com a tua simples presença! Aceito... não conheço descrição do paraíso mais aproximada que essa. É estranha esta nossa relação... eu gosto de pensar que funciona... tu não?

Ao mesmo tempo cresci, amadureci um pouco... Dantes tudo era diferente. A paixão com que escrevia sobre ti era tanta que chegava a rasgar as folhas com a simples violência dos traços ritmados da caneta. Hoje mal posso com a caneta, ela desprende-se dos meus dedos frios e levemente arranha o papel a pensar em ti. Fazia do nosso amor um estandarte, uma espada que bramia contra tudo o que me derrotava, um cavalo onde galgava as searas negras da noite incerta. Agora?... o teu amor é como uma mortalha que me cobre, a saudade que me agasalha, a lápide da minha campa onde os sonhos se me acabaram. Estou mais calmo...

Amadureci de facto... aprendi que não és minha, és tua. És feliz como um passaro, livre de voar até ao fim do horizonte, sem gaiolas, grilhetes, fardos que te prendam. És como és e de facto és unica. E, ou eu te amo e respeito como tu és, ou mais vale esquecer-te... porque nenhum dos dois seria feliz... acho que já sabes qual foi a minha escolha... não sabes?

Regresso à realidade alguns minutos depois... alguem buzina frenéticamente, estou a estorvar na estrada... arranco o carro e vou para casa... não há mais nada a fazer aqui.

Hoje não te vi, apenas te amei.


de João Natal

6.59 by Dr. Rafael Springmann

Publicado por D_Quixote em fevereiro 6, 2004 12:34 AM
Comentários

Que belo final!!!...."Hoje não te vi, apenas te amei."

Afixado por: Gotinha em fevereiro 6, 2004 10:54 PM

Que bonito.

Afixado por: Bichinho-de-Conta em fevereiro 7, 2004 12:28 AM

O verdadeiro Amor, o incondicional.

Afixado por: Marta em fevereiro 7, 2004 02:39 PM

Muito bem!!!

Afixado por: vítor em fevereiro 7, 2004 03:12 PM

se amas alguem saberas abdicar dela, é o que retiro da leitura de "hoje ñ te vi". Lindo...

Afixado por: kamiya em fevereiro 7, 2004 07:06 PM

Eis o amor em potência! Que bom, né?
Nem de propósito, antes de me deitar escrevi uma coisita que tem a ver com o teu estado de espírito. Vai lá ver. Serve-te como uma luva.


Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em fevereiro 8, 2004 02:53 AM

Obrigado amigos, pela visita, pela companhia, pelo café e pelos comentários...

Peço contudo desculpa... por uma anomalia tecnica que ainda não descortinei perderam-se comentários aqui deixados na sexta feira :-(

Espero ter isso resolvido muito em breve...


um grande abraço e um café quentinho... com o sol de hoje até pode ser na esplanada...

Afixado por: D_Quixote em fevereiro 8, 2004 03:26 PM

Tão lindo! (suspiro)

Afixado por: A Comadre em fevereiro 9, 2004 04:17 PM