fevereiro 12, 2004

Crónicas do nada – ressacas

O abandono de dentro transborda por fora. Penetro pela noite dentro com o copo como companheiro e a caneta como confidente. Afogo-me com as pedras de gelo no quente sabor do escocês dourado e afundo cigarros apagados no desterro do cinzeiro sujo.

Não sei o que faço. Despenteio-me frequentemente enquanto penso em ti, em nós, em tudo… no quanto tínhamos para dar certo e no quanto falhamos noutro tanto. Tudo é demasiado claro hoje à noite, a própria escuridão das luzes apagadas é incomodativa, como um sol seco e perturbador.

Abandono-me e regresso com a caneta na mão. Quero tanto escrever sobre ti que fico bloqueado. Demasiado dividido entre as coisas más que tinha para te dizer e as coisas boas que me vêem à cabeça quando penso em nós.

- “Não sei amor que mais te dizer. As coisas são como são e assim serão. A conclusão é óbvia, o destino vinga sempre. Ou nos junta de novo um dia ou nada fizemos mais até hoje do que nos degladiarmos com ele… mas as coisas têm sempre uma ordem, um sentido estranho e um escopo… acabam sempre por ficar na ordem certa.

A noite continua clara, o vento agita as persianas velhas da minha casa, não tão sólidas como o meu desgosto. Eu cá continuo, de papel em branco e caneta em riste. Olhar vazio no copo vazio. Cabeça despenteada cabisbaixa, pendida sobre o cotovelo arquejado, expressão de abandono, de esbatimento… como se eu todo fosse uma mancha de tinta num quadro a óleo, disforme, borratada, cadente…

Adormeço trôpego sobre a folha vazia, faço da minha poesia o leito. O peso da bebida acaba por ser maior que o peso da tua ausência e consigo esquecer-te talvez por mais algumas horas… adormeço trôpego sobre a mesa desarrumada…

Acordo a meio da noite enjoado e ainda zonzo. Na boca sinto um gosto estranho que varia algures entre a amargura e a ressaca. Enjoado arrasto-me para a casa de banho, tudo o que tenho dentro tem de sair para fora e desta vez não me refiro ao que sinto por ti… daqui a pouco vou trabalhar… ressaca…

por João Natal 11/02/04

Publicado por D_Quixote em fevereiro 12, 2004 12:33 PM
Comentários

Por dificuldades técnicas estou sem NET em casa há vários dias, sendo que precisei da ajuda de um bom amigo (o professor) para postar... foi a unica maneira de não deixar morrer este pequenino café que adoro!

Espero entre hoje e amanha que o problema fique resolvido. A todos os que me têm escrito e enviado poemas, um grande obrigado e a promessa que em breve figurarão aqui, no Poetry...

um grande abraço a todos!

Afixado por: Nuno Branco em fevereiro 12, 2004 12:44 PM

Consegui imaginar-me num abraço,assim...sem palavras... gostava que o meu sonho também pensasse em mim!
Pois...o texto é fabuloso,lê-se em arrepio.
Já tomava ...um café,se faz favor!

Afixado por: girassol em fevereiro 12, 2004 10:29 PM

Volta depressa!

Afixado por: AComadre em fevereiro 12, 2004 10:53 PM

Revelam-se cadafalsos
Em meio aos planos
E opacos
Espaços

Ó obtuso clarão,
Valha-me algo.

Afixado por: Thom em fevereiro 13, 2004 03:14 AM

Grande. Grande texto, e não no sentido de longo, mas de dimensão é muito profundo. Dá gosto vir aqui, ler um texto destes e ficar a pensar na vida, na minha vida e em como me fazem sentido estas palavras, pois tb eu já senti isso...
Belo texto. Continua.

Afixado por: jose em fevereiro 13, 2004 12:29 PM

Sempre envolvente...Que bom que é passar por aqui...

Afixado por: Valeria Mendez em fevereiro 14, 2004 03:24 AM

grande d.quixote. merece a pena a tua luta contra o esquecimento. aqui há poesia.

Afixado por: fernando esteves pinto em fevereiro 15, 2004 09:50 PM

Obrigado amigos pela vossa constante presença... vocês são a razão da continuidade! Assim como a presença dos novos autores cujo trabalho tão orgulhosamente exponho, com o mesmo carinho dos meus escritos!

Afixado por: Nuno em fevereiro 16, 2004 10:20 AM