Ela olha-se ao espelho, ouve o som das ondas incessável, e vê-se; sente-se salva. Volta a procurar a imagem no espelho, memoriza os traços, identifica a expressão e volta a ouvir o mar,
Começa o reencontro…
Sente-se frágil, não há retorno, uma vez atingido o tão imaginário cenário de libertação não há como voltar ao aprisionamento do dia-a-dia, ao visível bem-estar.
Vem o dilema, o eterno dilema do conhecimento, tão procurado mas sempre provocador de insatisfação. Olhos abertos? Olhos fechados? Surge a raiva contra a vida, contra o libertador. O desespero de quem acordou e não consegue voltar a adormecer, de que lhe serve permanecer acordada? Sonha e inventa; revive imagens apenas imagens. Tudo o resto se encontra bloqueado, não consegue ouvir, cheirar, sentir. O passado é um filme mudo a preto e branco, a cor foi anulada, o som foi apagado … não iria suportar o peso da paixão, a cor das imagens, o prazer dos sons.
A ilusão de um dia voltar a ver o filme original impede-a de enfrentar a realidade, agarra-se a ela com todas as suas forças. É mais fácil, bem sabe que muitos filmes virão e que este foi o que quebrou o que estava selado mas não o que lhe dará uma vida colorida como tanto anseia.
Aos poucos a coragem reaparece, sabe o quanto tem de lutar, não fosse ela uma eterna lutadora, sabe o preço a pagar por percorrer o caminho menos percorrido. Olhos abertos? Olhos fechados? A resposta está dada só resta que surja o momento para a libertar, no fundo ela sempre soube mas o caminho até à superfície é longo e doloroso. Ela não está sozinha mas tem de o percorrer sozinha. É bom sentir que não tem prazos, é bom saber que a solidão acabou, é bom poder entregar-se desta forma e saber o nome do destinatário. É aconchegante a cumplicidade, é relaxante a perda de pudor, é fortalecedor a certeza, é admirável a pureza, é indispensável a simplicidade e a tão esperada sinceridade.
Por tudo isto ela sabe que está para breve, mas a ânsia acalmou, o medo começa a desvanecer-se pois a imagem no espelho não mudou, o som do mar mantém-se, o bater das ondas não vai cessar…
de ccc
(obrigado bem grande a esta nova e promissora cliente do café)

#1 Miguel TITO
Intuição quase perfeita,parabéns.
Os meus olhos,se me defenderam foi porque nunca esqueceram o mar!
Afixado por: ninfa em fevereiro 15, 2004 02:39 AMSem dúvida uma grande promessa! Estarei atenta ao que virá a seguir.
Força!
:)
Olhos semi- abertos "sinto uma espécie de cansaço dos dias, desta procura de mim,entre o ser e o estar". Gostei
olhos não mais se fecharão.
por todas as palavras aqui deixadas obrigado.
São textos como este que me dão vontade de ter o café aberto. É a melhor tónica do poetry, mais do que a minha escrita, mais do que os autores consagrados, o que eu gosto mesmo é de dar a conhecer estas pessoas que tão bem escrevem e que ainda não o mostraram a toda a gente...!
Afixado por: Nuno em fevereiro 16, 2004 10:44 AM