fevereiro 18, 2004

Diário da tua ausência - Um sonho

Foi num dia normal, suave como este. Parece às vezes que foi ontem, apesar dos anos que já passaram por nós. Tu eras o sorriso de Verão, a vida que eu não tinha, o Sol… trazias um capacete debaixo do braço e fazias da scooter o teu corcel azul e cromado de fantasia. Eu era triste, dias de chuva cinzentos, folhas a voar ao vento, um saco de plástico do "Continente" a boiar no mar de Inverno, semblante carregado e expressão séria. Algo me atraiu em ti contudo. Algo me prendeu. Ainda não consegui muito bem perceber o que é, embora me lembre disso sempre que sorris. Ah… é verdade, o teu sorriso desde o primeiro minuto… o teu sorriso sempre…
Disse-te bem cedo o que queria, nunca fui um homem de rodeios. Tu eras tudo o que me faltava ter, e eu não tinha nada. Ainda és…
Disseste-me sem pestanejar que duvidavas de tudo na vida, e que o meu amor não seria diferente, disseste que eu seria passageiro, como o sol do teu sorriso ou a chuva do meu olhar triste. Disseste até que eu não te amava, que era completamente louco e que os loucos não sabem o quanto se podem magoar. Concordei triste à medida que me afastava, e talvez doido fosse quando voltei para trás. Num dia intempestivo, de chuva e humidade abundante, plantei-me na rua debaixo da tua janela, de fato molhado e braços abertos, e os rios de chuva tapavam-me as lágrimas, o vento disfarçava com pó o meu olhar perdido. Abri os meus braços e ali fiquei, indiferente ao tempo, à chuva, ao vento, ao relógio que não parava. A noite veio, os dias passaram, nasceram-me raízes nos pés, liguei-me aquele sítio, passei a fazer parte dele, o meu corpo solidificou e enrijeceu como madeira, nasceram-me folhas nos braços onde pássaros pousavam para repousar do voo. Os meus galhos cresceram até tocar na tua janela, e dei-te flores todos os anos por altura da Primavera. Nunca mais me viste, mas eu estive lá…


João Natal
17/02/04

Light tree and window by Paolo De Maio


(este é um texto do meu mais recente trabalho "Diário da tua ausência", e que decidi revelar primeiro num sitio onde me sinto em casa, pois lá vou todos os dias beber inspiração)

Publicado por D_Quixote em fevereiro 18, 2004 12:05 AM
Comentários

Obrigada por partilhar connosco este belo trabalho. Parabéns. Este "sítio" é o meu refúgio e o meu encontro. Como acho que não sei passar para o papel a minhas emoções, os meus sentimentos, aqui encontro sempre palavras que me consolam, que me estimulam e que me encorajam para continuar.
Obrigada a todos e ao Poetry Café.

Afixado por: Mena em fevereiro 18, 2004 12:42 AM

Lindíssimo. Obrigado pela partilha.

Afixado por: Marta em fevereiro 18, 2004 09:20 AM

Obrigado eu, pelas vossas palavras!

Afixado por: D_Quixote em fevereiro 18, 2004 09:27 AM