Tinha-me bastado um beijo e tudo ficava bem. Um simples abraço ou um gosto de ti. Já nem pedia um amo-te, pois conheço bem a tua natureza dúbia e o quanto foges dos compromissos. Em vez disso sorriste, deste-me um beijo na cara e disseste com o ar mais cordial do mundo: “- Obrigado João, és um bom amigo...”
E se me sentia pequenino, ainda mais mirrei, encolhi-me no meu nada, reduzido à insignificância da qual nunca devia ter saído. Olhei vago o horizonte composto por luzes citadinas e carros estacionados. Engoli a voz e as coisas que me apetecia dizer-te. Sufoquei. Disseste divertida que foi melhor assim, que preferias não o ter visto, pois sentias uma atracção terrível por ele, que não conseguias resistir quando ele estava por perto. Contudo passas a vida a resistir-me a mim! Foi melhor eu ter-lhe entregue a tua carta... ainda me interrogo do meu papel nisto tudo...
O confronto era inevitável, adivinhava-se e eu já o ansiava há algum tempo. Nunca pensei foi que me fosse causar tanta mossa. Sempre imaginei, relevar a situação de forma simpática, com a minha habitual descontracção. Não esperava encontrar tantas diferenças, a roupa de marca, o ar dândi e cuidado, algo queque e majestoso dele, o Mercedes Slk estacionado à porta, a pose altiva e segura de quem nada receia no mundo. Mas mais do que isso, a maneira como ficas a falar sobre ele tempo demais sem reparar que me magoas. Senti-me pequenino, senti-me ainda mais o pobre rapaz do campo que sou, perdido na metrópole em confronto com o habitante citadino. Senti-me nu... sozinho... apercebi-me pela primeira vez o quanto o teu mundo é diferente do meu ao ver as diferenças entre mim e ele.
Voltei confuso para o carro onde me esperava o beijo que não me deste, o carinho que não tiveste, o amor que não foi no conforto que precisava. Para saber que não era tão verdade aquilo que tinha sentido... afinal talvez seja... penso agora...
Despediste-te de mim como sempre, esquiva e fugidia e nem reparaste no que ficou para trás. Eu de coração partido, lágrimas nos olhos e cabeça mergulhada no volante. O tiquetaquear do meu relógio de pulso acabou por me lembrar das horas que eram. Horas de ir embora... horas de ir para casa.
João Natal – 18/02/04

Crowded by Hootan Hougtiness
Mais um texto das crónicas, tambem no sitio do costume...
O "sítio do costume" agradece o envio do texto e a sua referência aqui.
:)****
Afixado por: Sandra em fevereiro 22, 2004 12:28 PMDá gosto ler estes magníficos textos... um grande beijinho ao seu criador...
Afixado por: Teresa Sousa em fevereiro 22, 2004 01:48 PMA energia gasta por um amor que se revela não ser amor... bonito, muito bonito!
Essa tem sido a minha grande duvida ao longo da vida: Valerá a pena amar quem não nos ama? Acho que vale, pelo facto de podermos amar...
Afixado por: Xocolaty em fevereiro 22, 2004 08:56 PMNem sei o que dizer **
Afixado por: julia em fevereiro 23, 2004 12:07 AMVale sempre a pena amar,nem que seja à distância...
Afixado por: Valeria Mendez em fevereiro 23, 2004 02:13 AMO amor faz o mundo girar, por ele guerras já foram travadas, homens viveram e homens morreram... eu acho que o amor vale sempre a pena enquanto houver esperança de ser feliz! Um homem sem amor é um ser muito desesperado...
Afixado por: D Quixote em fevereiro 23, 2004 09:05 AMTem vezes que me sinto assim pequenina. Gostei muito.
Afixado por: Marta em fevereiro 23, 2004 09:50 AMo tempo urge...
if u gotta live, live with a smile! ;)
Afixado por: Pecola em fevereiro 23, 2004 10:29 AMObrigada pelo café!
Afixado por: AComadre em fevereiro 24, 2004 10:50 PMObrigado amigos pela vossa presença...
Afixado por: D Quixote em fevereiro 26, 2004 12:17 AM