março 04, 2004

Voyeur

De aqui, de onde te observo camuflado em desejos irónicos, pareces-me bela demais.
Espreito sem licença, de uma janela longínqua que não sei se existe.
Voyeur conformado nunca te conhecerei. Temo a luz, assustam-me os olhares estranhos. Vivo na sombra, passo o dia à espera da noite, quando te revelas silhueta curva em contra-luz inventada.
Imperfeito, seria película exposta ao sol se algum dia me visses. Assim, escolho a penumbra como habitat e restas-me como única ligação ao mundo que conservo na minha imaginação.
Isolado, desenho-te em traços impressionistas com tintas invisíveis azuis da cor que me lembro do céu.
Vives na minha mente mas és, eu já não sou, fui, mas quero voltar a ser contigo, imortal e perfeito.
Para mim, já somos, mesmo que sejas bela demais...


de Gustavo Vasconcelos

(enviado pelo próprio... obrigado Gustavo e benvindo ao Poetry, as portas estarão sempre abertas à tua poesia)

Publicado por D_Quixote em março 4, 2004 01:00 AM
Comentários

belíssimo e sombrio o retrato desta relação, em que o objecto de desejo acaba por ser a possibilidade de existir de quem deseja, "restas-me como única ligação ao mundo que conservo na minha imaginação."
e falando no reverso da medalha:
logo no início desta minha febre dos blogues, li algo interessante no www.eternuridade.blogspot.com, "Nós, que temos blogues, somos exibicionistas tímidos". Um abraço,
nuno.

Afixado por: troblogdita em março 4, 2004 02:56 AM

Obrigado eu por achares que era digna de ser publicada no teu blog.
Prometo ir contribuindo...

Afixado por: Gustavo em março 4, 2004 10:51 AM

Tenho medo de te amar demais, de sofrer demais: posso e quero amar-te mas tremo, e juro que não te amarei para não me magoar...
WB

Afixado por: whiteball em março 4, 2004 02:17 PM

Na pré-adolescência, namorei um ano inteirinho um rapaz através da janela. A dele ficava a 100 metros e mal nos conseguiamos ver. Namorámos mais outro ano mas normalmente.
Ainda me lembro com saudade desses tempos...

Afixado por: AComadre em março 4, 2004 11:00 PM

às vezes o amor é mesmo isso, saber observar, saber ouvir, saber ler a outra pessoa. Quando conseguimos isso, aí sim sentimos que crescemos... há um bocadinho de voyeur em cada um de nós...

Está frio lá fora... cafézinho quente?

Afixado por: D_Quixote em março 5, 2004 09:23 AM