março 09, 2004

Crónicas do nada – paradoxo do tempo

Hoje voltei a esperar-te. Tu trabalhaste até mais tarde mas eu não o sabia. Assim esperei-te na hora do costume no local de sempre. Saí do meu carro e senti imediatamente o frio intenso que se fazia, abotoei o casaco até cima e subi as golas como é meu hábito. O vento frio mordiscava-me as orelhas geladas e brincava com o meu cabelo rebelde, lembrando-me de como me costumavas despentear. Desloco-me ágil até chegar junto do semáforo onde te costumo aguardar, encosto-me a ele, rebusco o interior do meu casaco e tiro um cigarro para fumar. Preciso de formar uma forma côncava com as mãos para o lume do isqueiro não apagar com o vento. Tiro uma passa profunda, olho na direcção do cimo da rua, olho o relógio no pulso.

È irónico; passamos a vida inteira a batalhar de forma inglória com o tempo. Estou aqui parado a desejar que ele passe mais depressa para mais depressa estar contigo e, ao mesmo tempo, estou a odiá-lo profundamente, a desejar que ele nem sequer passe, pois cada dia que ele avança, mais um dia se aproxima da tua partida. Estranho não achas? Como ele nos molda e muda, nos faz crescer. O teu mau feitio já não me afecta, a vontade de estar contigo suplanta-o... até a tua frieza ou a incerteza do que sentes... o tempo ajudou-me a superar isso tudo. Mas estranhamente o mesmo companheiro que me ajudou agora te leva. Irónico não achas?

Dou por mim demasiado perdido em pensamentos profundos quando me apercebo da hora... já é tarde demais e eu tenho de ir embora! Acabo por não te ver de novo. Atiro a beata acesa para o jardim à minha frente. Apago-a com o pé, calcando sem querer um “amor perfeito”. Mas o que é que um amor pode ter de perfeito? Que raio de nome mais estúpido para dar a uma flor.

Amarfanho o casaco à volta do pescoço para tentar aquecer-me, de repente fiquei com mais frio. O mundo todo é um lugar frio hoje à noite.


de João Natal
09/03/04

lost in town by -m.c. -lopez

Publicado por D_Quixote em março 9, 2004 07:10 PM
Comentários

Engraçado como ao ler o texto, é-me tão fácil "fazer o filme". Nostalgia...é a melhor palavra que encontro para defenir este post. ADOREI...

Afixado por: Valeria em março 10, 2004 04:19 AM

Gostei muito, isso já não é novidade. Reportaste-me aos meus textos dos últimos dias com as tuas palavras. :)

Afixado por: Marta em março 10, 2004 09:33 AM

olá,
belas palavras ... e a imagem é fantastica!!
beijinhos..

Afixado por: Leda em março 10, 2004 09:53 AM

A ideia que procuro transparecer, tal como no post anterior é o frio, tanto do ambiente como da alma. No anterior havia um frio da natureza, neste é um frio citadino, do betão, do vidro, do mecanico.

Afixado por: D_Quixote em março 10, 2004 06:25 PM

Gostei imenso do texto e da imagem... :-)))

Afixado por: Teresa Sousa em março 10, 2004 06:38 PM

Gostei muito do texto, visualizei-o até. e vi qdo pisaste esse amor perfeito. :)

Afixado por: Ana em março 10, 2004 10:30 PM

Excelente... è incrivel á medida que ia lendo ia fazendo o filme na minha cabeça... muito bom mesmo...

Afixado por: Sérgio Fortunato em março 11, 2004 01:38 AM