As noites são passadas assim. Olhos no tecto escuro, vagos e tristes, semicerrados, semiabertos, perdidos na ausência de luz. O escuro do tecto assemelha-se a um abismo, um abismo sem fundo nem fim. Um buraco negro que tudo aspira, incluindo a minha atenção. Talvez como o abismo que um dia me disseste que eu podia saltar pois estarias sempre lá para me aparar a queda. E eu saltei crédulo... um Ícaro perfeito não achas?
O tempo torna-se uma coisa relativa quando estamos deitados à noite a contemplar o nada, vitimas da falta de sono e do peso da consciência. Os segundos demoram minutos, os minutos horas e as horas dias. Conseguimos fazer autenticas viagens no tempo, mergulhar no passado ao ínfimo pormenor, pensar na vida.
Lembro num flash o sol quente a bater na minha cara, o vento forte levantando a areia da praia, arremessando-a contra nós, o reflexo da luz no teu cabelo ruivo e o contraste deste com o azul do mar da paisagem. Tínhamos a vida pela frente e era esse o rumo que queríamos seguir, não tínhamos passado, nem erros, nem pecados. Apenas vontade de sermos felizes. E inocência... muita inocência.
A barra de Espinho enchia-se de espuma quando o mar desabava sobre ela. A areia brilhava enquanto dançava ao vento. O sol deitava-se lentamente sobre o mar tingindo-o de um laranja vivo. As cores esbatiam-se secas como o “cottage” de Monet.
Adormeço finalmente com o calor do sol a bater-me na fronte, sinto uma sensação de conforto e aconchego. Assumo uma posição fetal, fechada sobre mim mesmo, no abrigo do cobertor morno. Adormeço...
Toca o despertador violentamente aos gritos mecânicos. A hora urge, o frio regressa, o peso, a consternação, a responsabilidade. Levantar, acordar, retomar a vida. Retomar o quê? Ah... a vida... mais uma noite que mal dormi...
de João Natal

Changing Light by Robert Whiteman
O abismo das noites sem sono, o tempo parado. Entendo tão bem:))
Afixado por: Ana em março 17, 2004 08:47 AMO sentimento pode doer, o encontro com o abismo, mas as palavras que o traduzem e que o mostram, tocam-me.
Afixado por: Marta em março 17, 2004 09:25 AM as noites sao passadas assim:
"Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado,
Cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou."
...foi Vinicius quem escreveu e eu(nós) cantámos noite dentro.
as noites sao passadas assim:
"Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado,
Cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou."
...foi Vinicius quem escreveu e eu(nós) cantámos noite dentro.
as noites sao passadas assim:
"Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado,
Cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou."
...foi Vinicius quem escreveu e eu(nós) cantámos noite dentro.
as noites sao passadas assim:
"Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado,
Cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou."
...foi Vinicius quem escreveu e eu(nós) cantámos noite dentro.
Este João Natal escreve de facto muito bem. Uma mais valia aqui neste Poetry Café.
Um abraço aos proprietários!!!
Olá amigos... neste momento estou em Lisboa, sendo que só regresso ao meu Porto na sexta... como tal não haverá entretanto posts...
Agradeço o abraço Vitor... mas para te dizer a verdade, só há um proprietário... eu Nuno... e o João Natal, sou eu tambem (heterónimo)... pelo que muito humildemente agradeço o teu apreço pela minha escrita.
Vai um café quentinho? Vou servindo as mesas...
Afixado por: D_Quixote em março 17, 2004 06:10 PMMais uma vez, só uma palavra me vem
à mente depois de ler os textos do João... divinal! Nunca nenhum autor me despertou tão boas sensações com os seus escritos. Continua.
João Natal,
escreves fraes longos com ideias completas. Desenhas quadros com uita sensibilidade, estão bem arrumadas as palavras que vais escolhendo.
Gosto muito do teu sentido lírico.Que bela maneira de falar de uma noite de insónia...;)
"Os segundos demoram minutos, os minutos horas e as horas dias." Há dias que é mesmo assim... um segundo parece nunca mais passar, abarcando uma eternidade de contornos esfumados, numa espera quase dolorosa. E por mais que olhemos para o relógio, os ponteiros continuam apáticos. Há dias assim...
Afixado por: Maria em março 18, 2004 01:08 PMO médico não quer que eu beba café.Mas com este aroma quem pode resistir à tentação? Por favor reservem-me aquele lugar, na mesa do canto jumto à janela que dá para o rio. Prometo ser cliente habitual e leitor atento.
Afixado por: Pescador em março 18, 2004 10:53 PMEstou rendida, encantada, derretida com quem tão bem escreve. E, tal como o pescador, não resisto a um café quentinho com o rio por pano de fundo. Descobri-vos hoje e já me viciei nas batalhas contra moinhos de vento:)
Afixado por: Ella em março 19, 2004 02:16 AMNuno estás a falar a sério?escreves usando o nome de João Natal?
Afixado por: ccc em março 19, 2004 06:27 PMJoão, as tuas palavras deliciam-me, assim como o teu excelente gosto musical... Beijinho... ;-)
Afixado por: Teresa Sousa em março 20, 2004 12:18 AMSim... todos os poemas e textos assinados com João Natal são meus. É o meu "eu" escritor...
Quanto à distribuição das mesas... amigos sentem-se onde mais gostarem. Essas mesinhas junto à janela com vista para o rio Douro já costumam estar preenchidas... mas puxem por uma cadeira e metam conversa... o Poetry Café é para respirar poesia e fazer amigos...
Afixado por: D Quixote em março 20, 2004 10:02 AMque dizer...senão que me revi em cada palavra escrita, em cada sensação descrita...
Afixado por: sophiee em março 20, 2004 03:51 PM