março 24, 2004

Diário da tua ausência - coisas triviais

Já o tempo voa para alem da memória residual do que éramos. Eu, tu, nós… tudo o que nos unia e por nós servia como dínamo do planeta. Chama-lhe egocentrismo cognitivo, chama-lhe romantismo exacerbado, chama-lhe o que quiseres. Mas a verdade singela é que assim eras para mim, a medida de todas as coisas. A referência humana de todas as medidas, a pessoa certa, apesar de todas as nossas incompatibilidades malucas.

Hoje passei perto de tua casa, naquela rua onde tantas vezes te esperei em vão por coisas fugazes, coisas triviais. O teu sorriso, um aceno, um simples vislumbrar repentino da tua passagem na rua, por vezes apenas o teu vulto delineado na sombra do cortinado da tua janela. Passamos bons momentos aqui, nestas ruas quadradas e mecânicas desta cidade suja. Onde os prédios simétricos eram gigantes de pedra que assistiam testemunhas do meu amor por ti. Hoje são apenas jazigos desmesuradamente grandes onde se enterram vidas de pessoas às dezenas. Tudo é demasiado desinteressante, demasiado mortiço, desprovido de vida, de cor, de alma. Sinto a tua falta… sabes?

É engraçado imaginar a quantidade de coisas vulgares que fazíamos juntos, sem nunca atribuir grande valor ou significado a essas mesmas, como se sempre as tomássemos como garantidas de parte a parte, como um casamento velho e gasto onde já nos tínhamos habituado um ao outro. Estranhamente hoje vejo a importância desperdiçada em cada momento não gasto contigo. Em cada gesto em que não te afaguei o cabelo, em que não te beijei as pálpebras fechadas sempre que sorrias, e como sinto saudade desse sorriso… sabes?

A vida é feita de coisas triviais, hoje sei… coisas insignificantes que juntas formam uma história, um passado, a razão de uma ausência, e a razão do peso dessa ausência. Essas pequenas coisas fazem-me o homem buraco que hoje sou, nas pequenas coisas que me assombram no pequeno homem que me tornei, na trivialidade da vida banal que me resta. Nos dias que tenho sem te ter. Na vida sem ti…


de João Natal

..... by Murat Harmanlikli

(tambem aqui, pelas razões que já todos conhecem)

Publicado por D_Quixote em março 24, 2004 07:15 PM
Comentários

Muito bonito!;)

Afixado por: Vanessa em março 24, 2004 10:12 PM

Tão triste... temos mesmo de aproveitar cada bocadinho com aqueles que amamos, pois a felecidade é feita desses momentos que, de tão intensos e sentidos, se tornam eternos. Só assim a vida pode fazer algum sentido.

Afixado por: Ella em março 25, 2004 04:45 AM

Oppsss....já não dá para corrigir. É a "felicidade" - desculpem a gralha;)

Afixado por: Ella em março 25, 2004 07:03 AM

Uma face do amor, Bj

Afixado por: Marta em março 25, 2004 09:55 AM

Por vezes, são os aspectos triviais da vida que mais marcas nos deixam...

Afixado por: Teresa em março 25, 2004 04:28 PM

Todas as coisas pequeninas juntas fazem coisas maiores... grandes... o amor é uma coisa grande que se faz de aspectos pequeninos!

Afixado por: Nuno em março 25, 2004 04:52 PM

Quanta verdade...quanto sentir....quanto VER com o coração...quanto Tudo em tão poucas palavras! São assim os grandes GÉNIOS : os que nos tocam e nos fazem chorar com algumas, poucas, palavras!
Obrigada
WB

Afixado por: whiteball em março 25, 2004 08:38 PM

A história continua...
Mais um belo capitulo desta historia, cheia de encontros e desencontros, com personagens inventadas ou talvez não, mas que quase as posso considerar familiares. Mais um belo texto, sem dúvida, todo ele cheio de sensibilidade e de observações.
Na vida, esses momentos "triviais" como lhes chamas, são essenciais e muitas das vezes só ddamos por eles depois... quando já não os temos ou quando apenas os podemos recordar e sentimos a sua falta.
Mais uma vez, um belo Texto (letra maiuscula de propósito). abraço

Afixado por: Jose em março 25, 2004 10:23 PM

Caramba escreves mesmo bem! Eu gosto muito mesmo da forma como escreves, digo isto sem querer que soe a um qualquer elogio fácil. Gosto de verdade.Um abraço!

Afixado por: vítor em março 26, 2004 02:24 PM

São as coisas triviais, simples e quotidianas que alicerçam a nossa vida...quando nos faltam estamos mais pequenos:)

Afixado por: melancia em março 26, 2004 02:56 PM