Foi um dia de sorte, confesso. Fiz o convite a medo, como um puto que atira uma pedra e esconde a mão a seguir atrás das costas. Nunca pensei que fosses aceder, nunca pensei ouvir um sim como resposta. Aliás foi de tal maneira inesperado que nem sabia onde te levar para sairmos juntos. Sempre te via como tão inatingível e etérea que todos os sítios me pareciam demasiado vulgares e inapropriados para um momento a sós contigo. Aliás, ainda nem sequer tinha pensado no sítio até estar contigo, confesso… talvez mostre falta de preparação da minha parte, talvez sinal da minha insofisticação, fruto da minha simplicidade rústica e naïve. Foi ainda na deambulação atordoada de uma traça feia e tonta na hipnose da luz florescente que dei por mim a conduzir-te para a beira-rio, lá no lado de Gaia, onde o Porto nasce na bruma da noite, no brilho das luzes citadinas no reflexo aveludado e negro do rio Douro. Lá onde os bares acolhem vultos desconhecidos, criaturas da noite, seres do ócio e da vida sedutora da juventude que a noite traz. Lá onde o chão molhado do cais brilha como um chão de estrelas.
Sentamo-nos numa esplanada fresca, com o céu como tecto e a brisa as paredes. Tomaste um carioca de limão quente que te ruborizou ligeiramente a face, eu tomei o meu frio porque me distraí a olhar perdido para ti. Observava cada tique, cada gesto, cada pormenor delicioso do teu rosto cândido. Ofereci-te uma rosa comprada a um vendedor ambulante que ali passou. Sorriste e guardaste-a como algo de valioso. Nem reparaste que não era só a rosa que te estava a dar, mas também o meu coração.
Levei-te a casa logo após, a hora tardava na noite que avançava, em direcção ao desconhecido, e a noite era frio como esse desconhecido.
Acompanhei-te até à tua porta onde cordialmente me despediria de ti como sempre o fiz. Mas algo em mim irrompeu do sufoco da opressão auto-infligida, agarrei-te pela cintura, encravei o elevador no interruptor de emergência e beijei-te. Tu sorriste e retribuíste o beijo como se retorquisses “estava a ver que nunca mais o fazias João…” Paraste o beijo e continuaste a sorrir. Deixaste-me a beijar o teu perfume no ar e foste embora sem dizer mais nada.
A noite voltou a ficar fria…
de João Natal
Ponte D. Luis à noite by Amen
Publicado por D_Quixote em abril 2, 2004 01:00 AMEsses impulsos, finais é que fazem a diferença. Um café bem matinal para mim pode ser?:)
Afixado por: Ana em abril 2, 2004 08:06 AMClaro que pode... saia-se um café quentinho e curto para o balcão!
Afixado por: D_Quixote em abril 2, 2004 09:09 AMUm brinde aos maravilhosos instantes em que o instinto nos domina por completo.
Afixado por: ccc em abril 2, 2004 09:43 AMAinda se bebem cariocas de limão???
Lindo texto!
Nunca te arrependas desses gestos inopinados:)
Afixado por: melancia em abril 2, 2004 12:32 PMClaro que se bebem... quentinhos em noites frias em que a brisa nos levanta o cabelo e as orelhas gelam.
Quanto aos gestos inopinados e ousados... isso é com o personagem... o João... o autor é bem mais contido e racional. ;-)
E como sabe bem um carioca de limão em noites frias... ;-)
Afixado por: Teresa em abril 2, 2004 01:41 PM...carioca de café, de limão, café curto, cimbalino, bica, garoto, pingo, italiana... o que quer que seja... numa chávena quente e uma colher a tocar o fundo dela num açúcar doce e de sabor a mel... no fundo uma foto... ponte à noite... ao lado a Serra do Pilar... cais de Gaia, Ribeira... óh meu Porto doce!...
Afixado por: quim em abril 2, 2004 06:45 PMCeus.... este texto deixou-me sem folego!
Afixado por: Catarina em abril 2, 2004 09:56 PMConheço bem Gaia, não morasse eu bem pertinho do cais que falas... Gostei do texto!:)
Afixado por: Vanessa em abril 3, 2004 09:41 PMbem... que texto... ficar a beijar o perfume no ar... que imagem... só imagens a passar na minha cabeça ao ler o texto... Muito bonito, gostei bastante... e o Porto... claro... o Douro =))
Continua =) *
Nossa, que texto! Na verdade entrei neste site por acaso, por estar pesquisando sobre Antonio Lobo Antunes. Mas logo de cara, deparei-me com a frase magnífica do iínicio do site! Também adoro a magia das palavras, qualquer dia mando algum escrito! Sol
Afixado por: Soraia em janeiro 6, 2005 03:48 PM