maio 09, 2004

A Bela Acordada

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita,
as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.


In Adília Lopes – OBRA – A Bela Acordada, pag 300, Ed. Mariposa Azual, Lisboa 2001

(enviado pelo amigo Rui Costa)

Castle by Menno Naber

Publicado por D_Quixote em maio 9, 2004 12:35 PM
Comentários

assustador

Afixado por: jpt em maio 9, 2004 03:30 PM

a foto do castelo, entenda-se. o conto, enfim...

Afixado por: jpt em maio 9, 2004 03:30 PM

Engraçada a imagem e o ambiente do poema.. Não sei porquê lembrei.me do Citizen Kane.. :)

Afixado por: Pecola em maio 9, 2004 05:03 PM

Interessante...
Abraço, WB

Afixado por: whiteball em maio 9, 2004 11:06 PM

Como tinha saudades de beber aqui um bom café,e que saboroso está!"voltei"

Afixado por: joão pedro em maio 10, 2004 02:01 AM

...e como diz a outra "você é o dono do caroço da azeitona da empada que comeu".
...e dessa noite em diante o rei mandou pôr enormes aquários em todas as salas do palácio, e ninguém percebia porquê. Adormeciam os dois sempre olhando o suave deslizar dos peixionhos coloridos, apenas corrigindo aqui e ali a postura por causa dos caroços de azeitona espalhados e que de vez em quando magoavam as costas.

Afixado por: MA em maio 10, 2004 10:18 AM

Gostei da parábola que este texto encerra. Desculpa Rui pelo meu comment anterior. Bjo.

Afixado por: sibylla em maio 10, 2004 12:33 PM

É de facto uma parábola soberba... lindo texto este que encerra uma moral escondida.

Afixado por: D Quixote em maio 11, 2004 12:04 AM


não te percas, rui...
consegues encontrar bem melhor nessa geração dos noventa...
um abraço

Afixado por: as em maio 16, 2004 11:08 PM

Uma bela imagem!

Afixado por: D Torres em maio 23, 2004 12:43 AM