maio 14, 2004

Diário da tua ausência – vale a pena?

A noite afaga-me sempre. Cobre-me carinhosa como uma mãe atenta. E eu sinto-me sempre tão bem nos seus braços, apesar de tudo, apesar da minha solidão, apesar do meu vazio imenso de gente até quando estou em grupo.
Hoje saio com amigos, daqueles que conheço há anos e mal conheço ou nem sei se tenho, e é nessa companhia mais ocasional e provocada que habitual que mergulho na noite em direcção à aventura. Copos, farra e diversão, sem amarras e sem consciências, livre, apenas livre.

O local escolhido é escolhido por alguém que não eu. É um lugar sombrio de luzes pesadas, com música ambiente. O ar que se respira é fumo de tabaco e perfume barato. É uma casa de ócio e pecado, onde as fronteiras se esbatem e os riscos se ultrapassam quase sem consciência disso. Sentei-me a um canto sorvendo lentamente um copo de absinto com maracujá.

Ela veio ter comigo. Atiçada pelo grupo que me acompanhava numa tentativa desesperada de me animar e atirada pelo ímpeto predatório de facturar. Sentou-se no banco a meu lado e disse:
“- Não pagas nada?”
Eu fiz um gesto aberto com a mão ao barman dando indicação de lhe servir o que quisesse, contudo continuei mudo e sério sem esboçar reacção à investida.
“- Nunca te vi por estes lados... é a primeira vez?” Continuou tenazmente levando-me segura na conversa para onde queria.
“- Posso só fazer-te uma pergunta?” Respondi.
“ – Claro” Retorquiu algo estupefacta pela minha resistência.
“- Vale mesmo a pena?... isto tudo?... esta vida...?” Perguntei.
O olhar dela arquejou de surpresa e apreensão. Ficou por momentos introspectiva. Tirou da carteira de imitação barata de pele um maço de cigarros. Acendeu lentamente um, tirou uma passa e, como se regressasse a ela mesma naquele momento e respondeu:
“- Não... não vale...”

E a conversa evoluiu para sítios muito agradáveis. Falamos da sua infância, de como sempre tinha procurado independência, nem sempre enveredando pelos caminhos mais correctos. Falou-me que estudava, que escrevia poesia, que também sentia, também amava. Vi a pessoa por detrás da pintura, debaixo da mascara.

“- Obrigada, nunca tinha falado com ninguém assim... normalmente só me dizem palavras feias, insultos, caminhos directos para o que querem. Sexo. Nunca ninguém me tinha tratado assim... como uma pessoa... és uma boa pessoa.” Disse sorrindo.
“- Obrigado eu... por teres falado comigo... trata bem de ti... acaba os estudos e deixa isto...” respondi paternalista mas conscencioso, como um amigo que dá um simples conselho e parti deixando os meus “colegas” para trás e a nova “amiga” também.

Levei nessa noite uma triste figura no pensamento. Eu e ela éramos iguais de algum modo. Ela vendia o corpo por dinheiro e guardava a alma. Eu vendia a alma por amor e guardava apenas dor. Qual dos dois a maior puta?
Deitei-me essa noite sem conseguir dormir...



de João Natal

Alone on New Years by Ashley Massey

Publicado por D_Quixote em maio 14, 2004 08:14 PM
Comentários

Nos dois: a puta (ou putíssima) consciência- não sei se reles, se nobre- que os fez enveredar e fez/faz permanecer num determinado caminho ou percurso de vida.

Escolha(s).

Escolha(s)?

Afixado por: Sandra em maio 14, 2004 10:28 PM

ela deu-te a alma e tu a dor, "vale a pena?"

Afixado por: ccc em maio 15, 2004 11:47 AM

adorei o texto. um mundo que desconheço embora já tenha vivido numa rua das assim chamadas. vi que sofriam, isso vi "claramente visto". mas... putas (M ou F) são outras: mais refinadas, outras pinturas. e nunca assumem o que vendem e o disfarçam com falsas virtudes.

Afixado por: TCA em maio 15, 2004 05:23 PM

Talvez naquele instante, de troca de almas e dores, tenha ela achado que valeu a pena.. fizeste valer!
Valeu a pena ter-te lido e sentido.
beijo,

Afixado por: lualil em maio 16, 2004 02:40 AM

Putas assim espirituosas são raras. A maioria não resiste ao meio e entrega o corpo junto com a alma a essa vida.

Afixado por: Márcio Gama em maio 16, 2004 05:43 PM

a alma raramente se entrega ,gostei muito

Afixado por: Ana em maio 16, 2004 06:10 PM

Há igualmente que considerar que há putas que já nem alma têm. Ou melhor: já se esqueceram dela. Não é a Alma que lhes paga. Não é a Alma que as faz vender-se. Não é a Alma que as faz passar por situações vergonhosas e atrozes para a condição humana. Elas só poderão sobreviver, se não tiverem Alma. Basta-lhes o Corpo. Há que cuidar dele. "Que se lixe a Alma!"- pensarão muitas. "Que se lixe a Alma"- chorarão muitas.
Não se traficam almas, traficam-se corpos.
Mais: será raro existir alguém num bar ou numa esquina disponível para ouvir. Será raro haver alguém que as olhe para além do Corpo. Porque é o Corpo que conta. Sempre. Miseravelmente.
É o Corpo que dá tesão. É o Corpo que provoca orgasmos.
Alma! Qual Alma?

Afixado por: Sandra em maio 16, 2004 09:44 PM

Deveras, Sandra.

Afixado por: Márcio Gama em maio 17, 2004 01:28 AM

No meu conto, ela guarda a alma, isso vê-se na pureza angustiada do seu olhar. Ela está ali por uma má opção de vida, por erros no caminho. Ele apenas a confronta com isso e o despoletar do dialogo era algo já aguardado e pré-concebido.

Depois há a diferente natureza do erro... da parte dela a prostituição do corpo, da parte dele a prostituição da alma, do amor próprio.

A própria procura das personagens é diferente, ela procura corpo, ele procura alma.

Afixado por: D_Quixote em maio 18, 2004 08:59 AM

É isso mesmo Sandra, totalmente de acordo!
Continua ssim João!!
see ya

Afixado por: Niu (Sérgio) em maio 24, 2004 02:41 PM