“- Estou?...”
“- tou... , olá... és tu...”
E assim começou mais uma entre muitas das nossas conversas. O som estridente do telefone aos berros, a corrida desenfreada por entre inúmeros objectos que se interpõem pelo caminho, o arfar ofegante das primeiras silabas ditas...
“- ainda bem que ligaste... estava a pensar em ti...” diz ela...
E o turbilhão de coisas a dizer assolam o pensamento, estorvando palavra a palavra o que se tem a dizer. Pouco se diz então.
“- está tudo bem contigo? Como é que tens andado?” Pergunto.
“- comigo está tudo bem... e contigo?”
“- também...” Respondo.
E o silêncio incómodo surge na conversa, o tom lacónico do jogo pergunta/resposta dá lugar ao vazio, ao espaço imenso de tanta coisa para dizer e tão pouca coragem de o fazer. Os dedos brincam com o fio enrolado do telefone, esticando-o, retorcendo-o, tornando-o um escape mental da situação em si, como contas de um rosário nas mãos de uma velha devota em hora de terço.
“- posso-te ver mais logo?”
A minha pergunta vem como algo de esperado mas temido, evitável. Como a certeza de algo que já se sabe que lá está mas que se tenta ignorar a todo o custo. Ela espera, respira, engole em seco, volta a respirar fundo e responde:
“- tu sabes que não João... tu sabes que é melhor não...”
“- sei?...”
“- sabes... sabes sim...” Responde.
A voz quase trémula dela fortalece inesperadamente, tornando-se consistente, decidida, segura, fria... calca decidida os demónios da dúvida que a fazem hesitar, torna-se forte, forte demais...
“- tu sabes que não dá, não sei para que é que insistes... tu já sabes como é que as coisas são... tu sabes que eu não gosto disto... de me sentir amarrada... olha... tenho de ir... fica bem... adeus...”
E o sinal intermitente, substitui a pessoa intermitente.
de João Natal

Lost in Translation by Abdul Kadir Audah
Publicado por D_Quixote em maio 20, 2004 12:16 AMcrónicas da vida real, acontece vezes demais...
Afixado por: ccc em maio 20, 2004 12:40 PMuma amiga intermitente é melhor que amiga nenhuma...:)
Afixado por: melancia em maio 20, 2004 02:27 PMPara vocês, pelo excelente blogue:
Entre o querer e o ser dúvidas se afogam
P'la onda que atropela as próprias lágrimas;
Irrita o sol secante dos que logram
Fingir nessa verdade as suas lástimas.
Entre o querer e o ser as diferenças moram
E a assunção nos aproxima das máquinas,
'inda longe porquanto saciáveis
Lentos nesse mundo de apaixonáveis.
albertovelasquez.blogspot.com
A intensidade do sentir interrompe as nossas palavras. Quanto amor não fica interrompido nestas conversas telefónicas.
Como sempre, muito bom, João.
Bom fds *** para o Poetry.
Para que servem as pessoas intermitentes? Serão capazes de amar alguém que não elas próprias?
Adoro ler-te!
Uma janela para o retrato da vida comum. Bjs
Afixado por: Marta em maio 21, 2004 05:17 PMgosto dos teus contos. muito. vou oferecer-te um café, ainda mal moido.
Afixado por: TCA em maio 21, 2004 10:49 PMObrigado pelo café TCA, está com um optimo aspecto. Quanto ao conto, é apenas ficção do que podia ser real pois há muitas pessoas assim. Pessoas intermitentes com medo do compromisso, com receio das implicações do que um simples "amo-te" tem na liberdade individual. A Dalila dos meus contos é uma pessoa assim. Demasiado remetida ao seu umbigo sem olhar ao quanto vai partindo o coração a quem a ama.
As crónicas são um projecto meu que acarinho muito, espero que estejam a gostar.
Afixado por: D Quixote em maio 23, 2004 11:55 AMSão textos destes, tão reais e tão sentidos, que me fazem voltar sempre a este blog. Pequenas palavras, pequenos arranjos nas frases e tudo me parece tão real, e tão já vivido, que por vezes poderia dizer que me re-vejo nestes textos.
Muito bom, mais uma vez.
Continuação de inspiração, e de pertilha de momentos como este.