junho 02, 2004

Molly

Molly avança dançando na calçada austera, estas pedras da calçada não são
pedras límpidas! Molly desconhece outras pedras, como em todas as calçadas
rectilíneas e anoitecidas pelo seu andar atarantadamente simétrico,
aprisionando a vida, gasta na sua calçada, dia após dia, noite após noite,
no calcorrear dos seus cinquenta anos.

Molly cantarola a indiferença e justa e inadvertidamente Molly espreita pelos
cortinados do vizinho do lado, guerreou? Não guerreou? Contrai os ombros,
agasalha o filho no regaço, desatado do acaso, calcorreando as pedras,
intempestivamente, 9 horas? é tarde! O vinte e sete, a calçada e Molly,
encorpada, suja e dura como o breu.

Molly desdenha o homem sombrio, o recruta, o alinhavo, a carteira vermelha,
chanel da ladra, cativando o uniforme, indiferente ao furador, horizontal o
olho pelo arranha-céus, fumo do escape, bálsamo sonolento e envinagrado,
cuspindo o chão e enaltecendo do defunto, os restos mortais.

Molly anoitece e canta, lavando a audácia enrugada, que versos tão bonitos!
Esgotando a arrumação, apinhando o juízo, as beatas, o ar do pó, o cotão e
toda a habituação.

Molly espiona os minutos do exibicionista, descansa, o divino? Sorve o verde da
garrafa e desequilibra o néctar na calçada, escarnecendo do souflé de
espinafres. O senhor dos anéis observa da vidraça, a criança mastiga o ranho
e engole a pastilha elástica, Molly cantarola, arruma as pedras no saco de
plástico e extrai a última carraça do rafeiro do João. Molly
despeitadamente sorri e o rafeiro enraivece-lhe a mão direita ganindo aos
supetões e correndo aliviado pela límpida e escorreita calçada em
sofreguidão.

Molly recupera o filho enxovalhado, sorry pelas horas tardias! Encaixa o puto e
cospe o sangue na calçada incólume, bebericando o último gole e cobiçando o
conforto do sofá do senhor doutor, saboreando o deleitoso souflé de
espinafres, do tupperware prenda de casamento, ah 1954! O Julião, o rapaz mais
jeitoso d'então.

Molly despeja o cachopo na sala, sorve o último gole, ansioso o seu olhar terno
e felino, pelo fim do dia e pela última refeição. Molly não desarma, solta
o rafeiro e desengonçadamente cantarola na cozinha. Adormece exangue ao canto,
acordando amiúde com os latidos, e a vida? Não sabe o refrão.

Molly por fim naquela límpida calçada, cantarolando e ouvindo ao longe o BU BU
do Alfa Pendular.



de Nancy Brown

(o primeiro texto aqui da minha contundente critica)

Getting there by Miguel Torres

Publicado por D_Quixote em junho 2, 2004 12:35 AM
Comentários

este texto fala dum tema muito actual,mas o modo como está escrito é um pouco cansativo, eu penso que a causa disso é o facto de ter poucos pontos finais. Tem que ser ler várias vezes para se entender para onde estamos a ir. Mas muitos parabéns à autora pela sua sensiblidade ao falar de algo tão presente na nossa sociedade e que tentamos ignorar olhando para o lado.

A fotografia está muito bem escolhida e encaixa muito bem no texto.

Afixado por: Alex em junho 2, 2004 01:27 AM

ao escrever apressadamente dei um erro no português, e desde já rectifico... é Sensibilidade e não sensiblidade. O teclado ás vezes faz-nos comer letras...ups...

Afixado por: Alex em junho 2, 2004 01:32 AM

Uma escrita descritiva da sociedade em que estámos inseridos... está simplesmente espectacular, gostei principalmente da parte:"O senhor dos anéis observa da vidraça, a criança mastiga o ranho
e engole a pastilha elástica" ao ler isto o que salta à mente é: a criança mastiga o ranho e engole-o.
Parabéns!

Afixado por: angel em junho 2, 2004 08:08 AM

Alex - agradeço o seu comentário. O facto de ter poucos pontos finais é um pouco propositado. O "cansativo" de q fala resulta tb da repetição do nome "Molly" e de certas palavras, como a calçada por exemplo, contudo esses pormenores "cansativos", não estão lá por acaso. Provavelmente é um pouco exagerado, mas sabe... este é um dos meus textos de q mais gosto e para já não tenho grande coragem em mudá-lo, não querendo com isto dizer q desconsidero o seu comentário. Muito pelo contrário.
A foto é excelente. Mais uma vez obrigado pela sua abertura.

angel - Obrigado pelo seu comentário. Gostei da sua ideia da criança a mastigar ranho e a engoli-lo. Não sei o q passa pela cabeça das pessoas qdo escrevem, tb não se fala mto nisso, há mto a ideia de q quem escreve vive num mundo estranho aos demais, eu não faço parte dessa elite, gosto de falar da escrita em geral e para mim tudo é passível de ser discutido, desde q tal se faça com respeito pelos interlocutores, mas... isto td para lhe dizer q qdo escrevi essa frase, não foi com a intenção com q o angel a interpreta, mas sim pq considerei interessante o "jogo de palavras", contudo a sua interpretação é absolutamente legítima.

Cordialmente,
Nancy Brown

Afixado por: Nancy Brown em junho 2, 2004 11:25 AM

Sem querer ser mal educado, fiquei desagradávelmente surpreendido com a escolha do D.Quixote. Habituei-me a ler aqui bons textos, este e lamento dizê-lo é a excepção.Não tem qualquer fio condutor apesar da narrativa ser longa, não tem lógica extrutura, e a nivel descritivo é deplorável. Um péssimo texto. E a frase que fica é só uma mesma: a criança engole o ranho.Um abraço desiludido D.quixote

Afixado por: Alberto em junho 2, 2004 01:28 PM

Penso da mesma maneira que o Alberto, já li aqui textos muito bons, com imensa qualidade,mas este texto é mesmo mau. É confuso, anda ás voltas e não nos leva a lado nenhum. Como já vi aqui nos comentários anteriores a leitura torna-se cansativa, e não tem a ver só com as repetições que a autora faz,é com a própria estrutura mas tudo se resume a algo, este texto é mau porque está mal escrito. Já estive no blog da autora e não gostei de nada do que lá li, não tem sumo,espreme-se e não sai nada. Acho que necessita fazer muita leitura de boa poesia e pensar bem nas frases que escreve porque dá a ideia de que as atira ao acaso. Eu peço desculpa à autora e ao Poetry pela minha sinceridade,mas não podia deixar passar isto em branco.

Afixado por: Duarte em junho 2, 2004 04:08 PM

Caros amigos, estou triste com o que hoje vejo aqui.

A minha selecção de textos a afixar é bastante simples. Apenas faço uma triagem à qualidade e ao conteudo. Por norma bano textos que sinta que são prejudiciais à imagem do Poetry Café ou que contenham linguagem obscena de forma ofensiva ou de algum modo violenta para com quem lê. O que não é o caso deste trabalho.

Não vou ser hipócrita e dizer que gosto imenso de tudo o que publico. Por vezes há poesia com a qual eu não me identifico particularmente, mas dou sempre o beneficio da dúvida a quem escreve. Pois os gostos são sempre subjectivos e se eu não gostar, não significa que não hajam outras pessoas que possam gostar do texto.

Acarinho com muito orgulho todos os que me escrevem para o Poetry, pois já é uma tarefa dificil escrever e muito mais é um acto de coragem submeter a nossa escrita à opinião e apreciação das outras pessoas.

Afixado por: D Quixote em junho 2, 2004 08:37 PM

Nunca amordacei liberdades de expressão e de igual modo nunca apaguei comentários feitos. Prefiro calmamente falar com as pessoas acerca deles e resolver as coisas da forma mais educada possivel. Mas uma coisa não pode deixar de receber o meu reparo.

Uma critica quer-se construtiva. De modo a estar em aberto espaço ao progresso e ao aperfeiçoamento. O criticar por criticar é destrutivo. Não me deixa feliz ver isso aqui no blog. Quero que este espaço seja um incentivo a quem escreve e não uma maquina trituradora de pessoas. Isto não é o "idolos" nem o concurso da "miss portugal".

Do mesmo modo que me sentiria triste se o alvo fosse um poema meu. Sinto-me hoje triste por ver atacado um texto que, na minha opinião pessoal (valendo esta o pouco que vale), não está de todo mau. Apesar de alguma deambulação na narrativa, apresenta-se como um estilo diferente, com discrições bem feitas e uma projecção de imagens com força. Eu gostei, e foi como gosto que o editei. Se desiludi alguem com a minha escolha, peço desculpa, mas se não gostam deste texto, talvez gostem mais do próximo. Não vale a pena é desincentivar quem se esforça tanto num processo criativo e que, com alguma esperança de ver o trabalho apreciado o vê assim maltratado.

O Poetry Café, reitero, zelará sempre com carinho por todas as pessoas que nele ganham coragem para mostrar ao mundo um "eu estou aqui e escrevo"! Porque são essas pessoas, que poema a poema, texto a texto, fizeram esta casa.

Beijinhos e abraços a todos os clientes e escritores e continuação de boas leituras e bons cafés.

Afixado por: D Quixote em junho 2, 2004 08:46 PM

Tenho tanto orgulho em ti, mas tanto... Fizeste-me chorar; tens uma alma maravilhosa... Amo-te muito...

Afixado por: Teresa em junho 2, 2004 09:14 PM

Antes demais gostaria de dizer q não pretendo entrar em polémicas. Agradeço, do fundo do coração, as palavras cheias de força do D. Quixote. Ao Alberto e ao Duarte aconselho uma leitura "despreconceituosa" da Molly, para depois discutirmos com dignidade.

Afixado por: Nancy Brown em junho 3, 2004 08:06 AM

Nuno,

É por estas coisas que sou tua amiga! Obrigada por também o seres e obrigada por seres quem és!

Beijinhos,

Afixado por: Xocolaty em junho 3, 2004 01:07 PM