Bateste à porta
num dia cinzento de Primavera e antecipaste [em mim] o cheiro dos nenúfares,
dos crisântemos, das espigas debulhadas, do centeio semeado pelos campos, do teu corpo [no meu] espalhado nas águas do rio, poluído agora com os nitratos do teu amor.
e o corpo do rapaz de Bagdad estremeceu ao tocar do último tambor e a cabeça
de John rolou... rolou... rolou... no imaginário do espectador ocidental.
instalando-se a indiferença, zipando as cabeças e os membros decepados, a
irreverência, o lucro imediato, a história dos milhões, a foto da rapariga
afegã, o míssil, o olhar rebelde do rapaz e o dono do relvado.
e o sangue dos tigres imponentes e majestosos jorrou no firmamento.
e eu não estava...
de Nancy Brown
(o segundo texto desta autora com o seu estilo muito próprio)

Sharbat Gula, Pakistan, 1984 Afghan Girl by Steve McCurry
(e esta a foto premiadissima do Steve McCurry pelo National Geographic)
Publicado por D_Quixote em junho 10, 2004 01:14 AMSem arriscar nenhuma análise, agrada-me bastante o carácter impressionista do texto, o acumular de sentidos, distintos, a noção de tempo dinâmico (vertiginoso, sobreposto), impondo a presença ubíqua, e o degradé progressivo (infelizmente abrupto, infelizmente porque gostaria que o texto fosse mais longo) do naturalismo ao pós-modernismo. Sempre impregnado em simbolismo. E era exactamente este último que gostaria que me explicasse um pouco. Quanto à sua escrita no geral, invejo-a (positivamente, como incentivo) pela sua fluidez e versatilidade.
Um abraço
Bruno Amaral
Afixado por: BMA em junho 15, 2004 11:00 AM