Escolhi o dia de amanhã para te dizer quem sou
o lugar de onde venho e aquilo que pretendo,
só to direi amanhã.
Hoje vou continuar assim, como tenho sido.
Não esperes grandes novidades, a ementa é escolhida à semana,
quando entendem ser muito o barulho no refeitório,
costumam calar-nos com uma nova disposição da mobília.
Se me encontrares de costas para ti, acredita que nada fiz para isso
tenho permanecido calado,
faca na mão direita de frente para o Mário, que hoje é canhoto.
Mastigo devagar, penso no tão diferente que sou do garfo...
Levei o guardanapo à boca e ele foi entrando, não me assustei.
Foi muito suave, quem o fez, fê-lo bem
deve ter treinado o gesto vezes sem fim.
Parabéns à Renova
ninguém reparou
eles fazem isto tão bem!
Saí da mesa sem ruído,
tal qual o guardanapo entrou na minha boca,
ninguém reparou!
de Miguel Patrício
(já estava com saudades da tua poesia Miguel... ainda bem que ela está de volta)

At the Dinner by Lady Delaila's
Publicado por D_Quixote em junho 13, 2004 12:04 AMIdeia de base com um desenvolvimento muito bem conseguido, apesar da qualidade oscilante do poema. Esta oscilação surge da luta contra a influência de Alberto Caeiro.
"Escolhi o dia de amanhã para te dizer quem sou" é um começo superior, principalmente se a leitura for no sentido inverso, isto é: dirá mesmo quem é? A dúvida instala-se e acentua-se com a leitura integral.
A influência de Alberto Caeiro, revela-se no "Mastigo devagar, penso no tão diferente que sou do garfo..."(Caeirianismo por excelência).
E a luta do poeta contra essa influência, produz a afirmação "Parabéns à Renova|ninguém reparou
eles fazem isto tão bem!" de qualidade significativamente inferior ao restante poema.
Quando interiorizar profundamente a sua influência, criará poemas canónicos.
Fez.me lembrar William Carlos Williams.. "This is just to say..." :)
Afixado por: Pecola em junho 13, 2004 02:02 PMA poesia do Miguel é do melhor que eu tenho no poetry, é um dos mais antigos poetas desta casa e um dos que eu mais estimo e prezo. Um dia, à conversa com uma boa amiga, a Melancia, ela disse-me que um dos momentos que mais a marcaram neste blog tinha sido um poema do Miguel. Isso foi, para mim, motivo de tanto orgulho como se falasse de um poema meu.
Afixado por: D Quixote em junho 14, 2004 12:05 AMÉ bonito, parabéns.
Afixado por: japinho em junho 14, 2004 10:06 PMSimples, mas simultaneamente a transmitir uma certa estranheza, este "cenário" parece ser composto por pequenas fragilidades...
Afixado por: Maria em junho 15, 2004 11:53 PMTemos que falar um destes dias, Miguel...
Um abraço.
um dedal de natas em pó. nhaaaaaaaaaa! que nojo!
Afixado por: cândida em junho 20, 2004 12:38 AM