junho 24, 2004

Nú de amor

Eu estou no teu olhar porque me vejo lá.
Um abraço como o teu, já não acredito...
É verdade, não cheguei a despir-me totalmente,
mas nunca me senti tão perto de o ter feito.
Um abraço como o teu, já não acredito...
Uma manhã parei na entrada da cozinha,
tu punhas a roupa na máquina de lavar,
usavas o vestido curto que deixavas em minha casa
porque vivias longe.
Nesse momento vi a tua alma, a alma que amei,
disse para mim- É aquela mulher!
Na cozinha, de mãos molhadas,
no quarto, com o hálito possível de acordar
na casa de banho, apoiada no bidé
na sala, a ler e a comer cerejas
és aquela mulher, hoje onde quer que estejas!
A tua mão cabia tão bem na minha,
os teus lábios ligavam tão bem nos meus.
E tu gostavas tanto do meu arroz de peixe,
dizias que o fazia com carinho, ainda faço,
só que tu já cá não estás...
Sabes que me deito ao lado do teu vestido!
Agora que as noites estão quentes, nem abro a cama,
não pelo calor, mas porque não estás lá, para entrar nela comigo.
E eu assim também não entro.
Mas sabes que voltei a entrar no carro, uma destas madrugadas!
Desci à praia, tirei a minha roupa, vesti o teu vestido.
Molhei os pés e tive a sensação de que uma estrela me amou
Serias tu, meu amor?



de Miguel Patrício

(mais um poema fantástico que me deixa sem palavras... bravo Miguel...)

trembling blue stars by Tolis Elefantis

Publicado por D_Quixote em junho 24, 2004 01:08 AM
Comentários

Por mero acaso, posso pronunciar o 1.º comentário a este trabalho.
Entendo que, entre várias, há duas formas que definem a (grande) escrita poética: a qualidade ou a ideia (ou as duas juntas).
Independentemente da qualidade, da estética, da inovação, aquilo que, minimamente, se exige a quem publicita textos é que, tal como na fruta o caroço, o poema contenha uma ideia (ou a síntese de uma história).
Não há dúvida que essa ideia se tornou adulta neste poema: a ideia da perda, que pode ser traduzida usando um chavão dos chutos: "a vida é sempre a peder".

Afixado por: Barbant em junho 24, 2004 05:14 PM

:) Que lindo.. Acho mais romântica a desromantização do Amor que a sua faceta "etéria" mas vazia de sentimento.

Afixado por: Pecola em junho 24, 2004 09:06 PM

Ainda bem que alguém não fala de Eueo 2004

Afixado por: Jumento em junho 25, 2004 01:58 PM

um poema silencioso. uma colecção de imagens que transmitem o vazio da perda. absolutamente bem conseguido.

Afixado por: BMA em junho 25, 2004 02:24 PM

quem granda trabalheira esse post!!!!!!
mas pronto, força, continua
ja quase nao me lembrava pq estou aqui (o post é MESMO grande!), mas queria dizer que o poema é belíssimo
o amor está por baixo da maquiagem, nao precisas ser a gisele bunseilá para ter todo, o maior amor do mundo

Afixado por: janaína em junho 25, 2004 05:43 PM

Simplesmente LINDO!
Parabéns!!!

Afixado por: angel em junho 25, 2004 06:07 PM

O Miguel tem um talento nato... não acham? É dos poetas mais completos e maduros que tenho postado. E já tem uma pequena legião de fans que já me confessaram que adoram a escrita dele.

Afixado por: D Quixote em junho 26, 2004 09:19 AM

Acho é estupido ou triste ter que, tantos meses depois de ter começado com o blog, andar a apagar comentários deixados aqui, por serem de tal maneira desadequados que só servem mesmo como veiculo de exibicionismo de alguns bloggers.

O meu sistema de comentários serve para as pessoas trocarem ideias, expressarem opiniões, criticarem, etc. Nâo servira para fazerem um copy-past daquilo que têm nos proprios blogs. Isso é um absurdo. Por isso apaguei dois comentários sem nexo que se encontravam neste post e no anterior.
Lamento mas será assim... a todos os restantes amigos, as minhas desculpas.

Afixado por: D Quixote em junho 26, 2004 09:46 AM

Este poema deixou-me sem palavras, só emoções ... Triste o final, mas de uma beleza e ternura incomensuráveis!. Beijo.

Afixado por: Pink Lady em junho 29, 2004 07:14 PM