Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!
Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da
praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
de António Gedeão

(enviado pela amiga Alice... obrigado Alice, é sempre bom ler Gedeão... beijinhos)
António Gedeão
Físico, historiador e divulgador da
Ciência, o autor também foi poeta
Este poema escrito por Rômulo de Carvalho
(como poeta adotou o pseudônimo de Antonio
Gedeão), faleceu em 1997, aos 91 anos.
Um Poema para Galileu
Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num
escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de
capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio
mordiscava os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e
das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que
estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor,
que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu
pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma
Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juizes, grandes senhores
deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões
de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer,
homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
Existem dias em que nada vale a pena...outros porém, por algum detalhe, valem o dia inteiro... E o que valeu no dia de hoje??? Navegando pelos cantos das telas, cliquei num link de um blog qualquer e acabei aqui. E isso valeu o meu dia. Parabéns por esse lugar que reune tudo numa só xícara de café. Seu blog é delicioso, quando der passe no meu, terei grande prazer em te receber, estou começando agora na arte dos blogs e ainda estou meio perdida, mas o importante é deixar registrados pedacinhos pelos caminhos...Beijão, Soninha
Afixado por: Sonia Pallone em julho 13, 2004 05:19 AMÉ sempre agradável vir aqui
uma pessoa liberta-se do stress quotidiano, para se vir refugiar, nem que seja por um bocado, no meio destas palvras
Afixado por: Broken Soul em julho 13, 2004 10:45 AMObrigado pela vossa visita e pelos comentário. Isto tem andado mais parada, mas comentários assim valem por muitos.
Afixado por: D_Quixote em julho 14, 2004 09:41 AM