julho 15, 2004

Cerejas

Cerejas amor,
Balas de carne fruta
A explodir na boca.
São as últimas cerejas amor
Como se não soubéssemos
Antes que as pesassem para os nossos lábios
Antes que as colhessem para os nossos braços
Abre a cesta que tens na tua boca e leva-me para dentro de ti
Essas cerejas
Normalmente são duas amor
Normalmente são duas
Porque fomos nós separados?
Normalmente separados
Por uma distância de comboio alfa
Eu chamo-me sul, dizem eles que me chamo sul
E tu norte, Braga, qualquer coisa de rua laranja
Que nem lembro a tua morada
E a tua mãe que te pariu
E a minha que me pariu a mim
E o teu, e o meu irmão
E a minha mentira
A minha coragem que não anda de comboio
E o teu corpo que me dói vir a ser tocado por outro que não eu
E agora este silêncio de lábios, os meus e os teus
Acordados por outros, dói-me
Dói-me acordar porque eu gostava dos teus defeitos todos
Todos
E o meu rabo, lembras-te?
Eles não precisam de saber o resto!
Sim é uma mulher não confundam,
Não que isso seja importante.
Cerejas amor, tu sabes que não uso relógio
Na tua boca estive sempre dentro do meu tempo.



de Miguel Patrício

(um poema fantástico com sabor a Verão)

"Bowl of Cherries" by Scott Hendrickson

Publicado por D_Quixote em julho 15, 2004 12:52 AM
Comentários

hum...cerejas!

Afixado por: Esquilazul em julho 15, 2004 07:23 AM

Que bem que sabe no fim de um dia de trabalho ler este poema de cerejas e ouvir esta música ( já é outra ). Beijinhos

Afixado por: Monalisa em julho 15, 2004 07:46 PM

Na escola primária, há muitos anos, começava assim a redacção:
"Eu gosto muito de cerejas. É a minha fruta preferida.
Às cerejas (fruta) todos chegamos mesmo sem subir à árvore. Às outras ...mas todos os lábios foram criados com a função de as comer.

Afixado por: Barbant em julho 15, 2004 11:28 PM

A genialidade da escrita do Miguel é sempre muito marcante.

Afixado por: D Quixote em julho 22, 2004 08:36 PM