Barba negra, negro olhar
de um homem de lixo que no lixo remexe.
Na vergonha incerta como a fome que aperta
não tens que em mim reparar,
sentir culpa, pesar ou vexe,
neste meu olhar que tanto te desconcerta.
A multidão ri-se e escarnece,
desdenha de ti sentido nojo e vergonha
quando pisa na rua o jornal que é a tua cama.
A multidão de pedra que tanto se esquece
que tu és ainda um homem que sonha
e talvez ainda um homem que ama.
Junto ao Continental em Lisboa,
um velho pedinte remexia detritos
em gestos aflitos em busca de comida.
E ainda hoje a lembrança magoa
ao pensar triste nos mudos gritos
tão infinitos de quem sofre assim a vida.
Barba negra, negro olhar
E tanta fome… na moderna Lisboa…
João Natal
19/07/04

homeless by Blerim Racaj
Publicado por D_Quixote em julho 20, 2004 01:17 AMeu mergulho por aí todos os dias (qd estou em PT), e confesso q a minha indeferença tb já se instalou. os valores mais altos q digo defender, devem-se porq a barriguinha tá cheia, tenho onde dormir, o bolso tem dinheiro, tenho os 5 sentidos felizmente intactos... tornei-me um indigente social.
Afixado por: Golfinho em julho 20, 2004 02:23 AMEstas palavras só poderiam vir de alguém tão sensível como tu. Infelizmente, há muitas pessoas por este mundo fora cujas suas casas é a rua; esta é uma triste realidade em relação à qual ninguém deveria ficar indiferente...
Afixado por: Teresa em julho 20, 2004 01:20 PMPor vezes um sorriso, um pouco de conversa, vale mais que uma moeda...
É um retrato da realidade urbana na qual vivemos e com a qual não sabemos lidar...
Todos deveriam possuir um minimo de civismo e sensibilidade. praticas não te limitas aos belos discursos, é de louvar.
Afixado por: ccc em julho 21, 2004 06:55 PMDe facto, este poema nasceu-me da memória triste de um sem abrigo que vi em Lisboa, junto ao hotel Barcelona onde eu estava... a imagem daquele homem de cabeleira negra como a noite impressionou-me, sobretudo pela forma avida como vasculhava o lixo à procura de algo para comer. Talvez o choque tenha sido maior por ser numa deslocação à capital, onde se apregoa sempre um distanciamento grande a nivel civilizacional em relação ao resto do país... chocou-me... acreditem.
Afixado por: D Quixote em julho 22, 2004 08:31 PMPerante imagens, cenas, vultos deste teor, penso sempre a mesma coisa:
Engraçado, o Guerra Junqueiro continua vivo, não morre nunca mais!