setembro 08, 2004

impronunciável

eu esperava que alguém entrasse na minha vida
alguém esse alguém cujo nome fosse impronunciável
alguém que conhecesse
a razão que me leva a remendar a alcatrão a minha vida
porque me sento aqui
na hora do sonho do fim do dia
o olhar um vão de escada no fim daqueles dias

assim,ninguém sabe
e sento-me aqui,à mesma hora
uns diriam a hora do desespero outros afirmam que só as palavras dolorosas
as palavras que sobrevivem das palavras feito pesadelo
como em criança,assim
se assim o recordam

ele recorda-se de muito pouca coisa
lembra-lhe a cor daquele mar
que agora repousa indigo no relógio

lembra-se duma doença neurodegenerativa
lembra-se de pedir alta a um deus
que não recorda o ar senão ar envenenado
desavindo com alcatrão nos mares
e cansado por entrar na vida das pessoas

Com um ajuste no sobretudo
fuma algo com capa dominicana miolo açoreano e hondurenho
reparte o bote com uma divindade
não usa no rosto blush and kiss miel 04 da lâncome
nem tem os olhos feitos de star powder cobre da make-up forever
mas fundem-se numa só natureza
e tem um nome que por vezes é impronunciável


de Renaldo Ventura

(uma estreia absoluta no café... vale a pena ter assim o palco cheio de talento... vale...)

Red by Yuri Bonder

Publicado por D_Quixote em setembro 8, 2004 11:09 PM
Comentários

A dor que está a passar entre as frases do teu poema, doi-me...

Afixado por: melancia em setembro 13, 2004 11:25 AM

Excelente Renaldo, o trocadilho de palavras é divinal !

Afixado por: Finurias em setembro 13, 2004 03:01 PM

se não te conhecesse, reconhecer-te-ia aqui. *

Afixado por: marilia em setembro 18, 2004 02:13 PM