Parei o carro junto à barra, onde começava aquela praia deserta, onde os meus olhos se perdiam sem rumo, num fim de tarde cinzento e só. O rádio tocava uma cassete velha com jazz. A chuva caía tímida contra o pára-brisas embaciado do carro. E o barulho do mar fundia-se perfeito em uníssono com o ruído típico da fita da cassete nos momentos vazios e pausados da música entrando também no ritmo da canção.
Saí do carro e caminhei em direcção ao mar. Encostei-me no parapeito em granito do extremo e fiquei ali, impávido à chuva que caía e ao vento que me despenteava com fúria e agressão. O mar esmagava-se revolto nas rochas abaixo de mim num gesto gigantesco de submissão e poder e a espuma ficava, efervescente, nas pedras.
Ali fiquei encharcado durante horas. Submisso e oprimido pela dimensão do mar irado. Perdido em pensamentos confusos. Encurralado em reminiscências dolorosas. Enfeitiçado por memórias de sorrisos distantes. De ti.
A noite caiu. E a tristeza saía das coisas. Como se fossem um prolongamento de mim. As casas, os carros, os candeeiros foscos acesos da rua, as pedras da praia, o chão do passeio. De todo o lado saíam fios que se prolongavam até mim. As luzes borratavam e estendiam-se na minha direcção. Toda a tristeza do mundo. Toda a tristeza de todas as coisas estendia-se para me tocar. E eu apenas via esses fios negros que se estendiam até mim e me ligavam na dor à tristeza do mundo. O meu coração doía batendo dolorosamente e a minha testa ardia já em febre com a chuva a bater-me fria na fronte.
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“Estarei eu louco? Que faço aqui?” Limpo os lábios trémulos com as costas do meu braço encharcado, fecho os olhos e recordo o perfume do teu sabor. E seria tão fácil atirar-me ao mar e encontrar no abraço dele a paz que não encontro na ausência do teu abraço. E o ruído das ondas chama-me como o canto de uma sereia.
Mas algo ainda me serve de âncora com a sanidade, nem sei bem o quê. Afasto estes pensamentos febris e regresso a casa. O mar fica para trás e as únicas companhias que levo para casa. São a dor da tua falta e a gripe que apanhei.
Termino a noite sozinho no sofá, deprimido com um chã quente. Até adormecer sozinho nesta infindável tristeza.
de João Natal

The Storm by Henrik Bengtsson
"On the floating, shipless, oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang "Sail to me, sail to me,
Let me enfold you."
Here I am, here I am
waiting to hold you".. song to the siren.. eh.. lembrei-me..
Gostei do texto.. keep the good work
Palavras para quê? A tua escrita fascina-me, tu sabes disso... :)*
Afixado por: Teresa em setembro 19, 2004 11:58 AM"E seria tão fácil atirar-me ao mar e encontrar no abraço dele a paz que não encontro na ausência do teu abraço." é sempre uma surpresa descobrir que as palavras de outros, neste caso tuas, podiam ser as minhas...parabéns pelo teu trabalho, pela tua obra de facto!
Afixado por: someia em setembro 19, 2004 01:14 PMque banalidades!!!!!!!!
Afixado por: Maria em setembro 19, 2004 11:20 PMAo ler as tuas palavras voltei a sentir que ninguém sofre dor mais aguda que um poeta.
Afixado por: melancia em setembro 23, 2004 09:43 AMParece o eco do que não sei escrever! Lindo!
Afixado por: conchazul em setembro 26, 2004 01:22 AM