outubro 12, 2004

Ando só por essas areias finas dessa praia sem dono, ouvindo o som do beijo das ondas no sedimento fino e bem selecionado no qual piso. Ando só, sem destino, sem motivos, sem porquês, sem alguém, sem mim. Ando só por essas areias úmidas, sentindo o toque gélido da água nos meus pés. Ora olhando para a frente - para o nada -, ora olhando para baixo - para o nada -, ora olhando para cima - para o nada.
Sinto o tempo esfriando, sinto meu corpo iniciando a tremer, mas persisto minha caminhada para o nada. Recolho minhas mãos juntas ao corpo para me esquentar, mas o frio é maior, acrescentado do toque suave da gélida água nos meus pés.
Paro por um instante e fito o horizonte à minha frente, um horizonte rosado se misturando com o mar. Um horizonte que vai ganhando uma coloração negra, enquanto aparecem estrelas solitárias sobre minha cabeça.
O frio aumenta... não aguento... mas persisto...
A dor me consome, a dor do frio, a dor do consciente sujo e pesado.
Sintos finas gotas caindo do céu, uma nuvem se apondera da beleza das estrelas e provoca a chuva, a chuva sobre mim, a chuva pra me lavar, ou pra me "nocautear" de vez.
A fina chuva se transforma em forte temporal, com ventos fortes. Não vejo mais nada à minha frente, a escuridão toma conta de tudo e me torno um ponto em movimento em meio a tal escuridão. Os grossos pingos de chuva me inundam, inundam meu corpo, inundam cada parte de mim. Caio no chão sem forças para me levantar... sujo-me de areia... sujo-me com meus pensamentos... sujo-me comigo mesmo...
Permaneço imóvel, morto de frio, com os sentidos paralisados... nocauteado... perto de um fim... cada vez mais perto...


de Marcus Vinicius Costa Almeida Junior

(e do outro lado do Atlântico chega o talento deste amigo... mais um dos que orgulhosamente conservo...)

Enquanto a noite cai... de Vasco Oliveira

Publicado por D_Quixote em outubro 12, 2004 09:21 PM
Comentários

Um texto cheio de talento. Negro e pesado. Gostei muito.

Afixado por: ognid em outubro 13, 2004 01:37 AM