outubro 26, 2004

anda alguém a desacertar o relógio do mundo ou foi encontrada uma mulher morta com sêmen nos olhos - I

Estou na rua das lágrimas com chuva; subo a montanha e do cimo de uma nuvem vejo um pássaro. Acredito que ele é Deus, criador do horizonte e do céu que se vislumbra dos olhos dos poetas vagabundos.
Caí do ventre para a cidade, Lisboa abriu-me os olhos; tenho a cidade e o rio, tenho as palavras como sangue, a cair do corpo dos livros, para o silencio das ruas.
Conto-te que a poesia se atravessou qual um barco no mar do destino. Tu não acreditas no destino; olhas o branco de um muro e vês apenas linhas e agarras nelas como se faz com os gestos, assim uma outra forma de natureza. A natureza é a mãe de todas as danças, fala ela todas as línguas e tu tens o segredo de fazer mexer todos os órgãos da vida. A terra, o fogo, o elemento solidão, elemento corrosivo das paixões que faz crescer noutra direcção o nosso primeiro fôlego de existência, o princípio da nossa história.
Tomos temos dentro de nós um oceano, todos possuímos um peixe colorido. Em nós flutua a cal, o cimento, o barro vermelho e o ferro que levanta os guerreiros enfraquecidos.
Na cidade havia um rapaz que dormia na gruta dos comboios, olhava o céu e desenhava como um Deus criança o azul seda que cobre os anjos da cidade pobre. Muito tempo a olhar as pedras, a sentir os automóveis velozes e a mão do vento a fechar os olhos dos velhos moribundos.
O rapaz que desenha como uma criança é oriundo de uma ilha, todos somos uma ilha, a nossa ilha é o medo dentro de nós e tantas coisas que nem sempre são laminas ou cinzas que ardem nos olhos com lagrimas.
Tu perguntas se tenho um sentido, se existe a luz e se a escuridão é aquele princípio que faz adormecer. A semente que brota da terra não tem respostas para te dar.
A terra está nua, tu não reconheces a nudez dela, não é apetecível como a das mulheres. É necessário transformar o barro vermelho na forma curva das palavras, é importante regressar á energia que dá fogo ao coração e talento aos operários que transformam a força, naquela vontade, que nos protege a nós cidadãos comuns de certos rituais de sangue.
É esse sangue que o artífice usa para expressar na pedra e no ferro e noutras matérias orgânicas o motivo de ser da ciência e da política, a razão de haver frutos nas árvores e espíritos vestindo os corpos e haver ódios e paixões ricos e pobres e toda a classe de criaturas que o cinema produziu tão frias e verdadeiras como a morte.

de Lobo

Lisbon by Miguel Dias

Publicado por D_Quixote em outubro 26, 2004 12:33 AM
Comentários

Estas palavras, lembraram outras...

CÉU DA MOURARIA

Quando Lisboa acordar
Do sono antigo que é seu,
Hei-de ser eu a cantar,
Que eu tenho um recado só meu.

Céu da Mouraria... ouve,
Vai chegar o dia novo!

E o sol, das madrugadas todas,
Névoa de um povo a sonhar,
Os teus mistérios, Lisboa
São, as pombas que ainda há...

Pedro Ayres Magalhães in "Ainda"

Para ouvir nestes dias de Outono dourados...

Afixado por: Senhora das Estrelas em outubro 26, 2004 10:09 PM

muito bom.. parabens pro lobo!!
e q imagm liiinda..amo foto de esquinas,ruelas..e etc

Afixado por: ladyHeaven em outubro 27, 2004 08:27 PM

Forte de tão lindo! Real de tão próximo!

Afixado por: conchazul em outubro 27, 2004 10:51 PM