novembro 02, 2004

R.I.P.

O lugarejo jazia há longo tempo na profunda terra-de-ninguém. A lua. Cheia de luz obscura cinzenta esquecida. E o frio. Demasiado. Adormece o pensamento. Movimentos curtos e apenas os essenciais. A única luz artificial vencia intermitente a névoa rasante. Vermelha. Alternava. O brilho ténue com a escuridão total permitida pela lua.
Foi aí que parou vindo de lado nenhum a caminho de um algures indistinto. Demorou-se à porta. Um olhar sedutor mostrou-lhe a entrada. Calor. Música. Luz. Perfeito. Já havia sonhado com aquele lugar. A companhia ocasional ofereceu-se champanhe. Breve circunstância de conversa. Um cigarro apressado completa o prazer fugaz. Mal apagado no cinzeiro meio cheio de muitos mais que não dele. Um boa noite até amanhã fingido porque amanhã já nem sei quem és. Respiração fora de ritmo vence mais uns metros de estrada.

A boleia tarda como tarde é a noite que se esquece de dar lugar ao dia. Subitamente olha o pulso e o relógio esquecido na pressa da saída. Ofegantes passos invertem o caminho e voltam à luz intermitente. Nós gelados dos dedos soam secos na madeira envelhecida quase podre. À ausência de resposta pede licença a ninguém e abre a porta apenas encostada. A luz é agora breu, o calor frio e a música silêncio ensurdecedor. Só um último fósforo aceso deixa ver os sinais de abandono quase eterno. Nada mais existe o lugar é vazio.
No entanto, algo parece brilhar no mais escuro dos negros. O relógio desaparecido marca ainda a mesma hora. Foge de imediato evitando pensar. Empresta à estrada o som preocupado do seu correr fugitivo. Eis que acaba a estrada e começa um portão não desconhecido. R.I.P. são as inicias feitas de ferro forjado imperfeito iluminado pela lua cheia. Para trás não ousa voltar. Segue então em frente e entra. A névoa cerra mais rasante o possível que permite a solenidade do jardim. Por todo o lado procura uma saída inexistente.

Exausto da busca inútil, senta-se e descansa o momento que o medo observa. Ao olhar em volta, descobre por entre os cinzas escuros daquela noite aquilo que mais temia. Na lápide em frente está gravado o seu nome e incrustada a sua melhor fotografia. E a data é a de ontem.


de Gustavo Vasconcelos

(mais um texto teu incrivelmente belo e negro ao mesmo tempo, este terá lugar de destaque também no Nox...)

graveyard.... by emil schildt

Publicado por D_Quixote em novembro 2, 2004 12:13 AM
Comentários

belíssimo blog! Saudações.

Afixado por: T. em novembro 2, 2004 06:35 PM

surpreendente. Belo, mesmo arrebatador... A foto tão bem escolhida, como sempre...
Adorei!

Afixado por: Senhora das Estrelas em novembro 2, 2004 08:52 PM

Ia dizer que este texto pertence ao Nox, mas alguém o fez antes de mim...soberbo! E pq sou taum gulosa, quero mais, pode ser?

Afixado por: nina em janeiro 12, 2005 03:28 PM