novembro 08, 2004

Reencontro

Era uma tarde, como outra qualquer tarde de Outono. Fria, mas luminosa. Igual, mas curiosamente invulgar. Sentiu-a mal acordou.
A noite passada, estranhamente esquecida durante as primeiras horas do dia, voltava agora com a força de um segredo que nunca deve ser contado, que nunca deve ser lembrado. Afinal, aconteceu.
Tinha saído sozinha, para beber um copo no sítio de sempre. “Com certeza vou encontrar alguém conhecido”, disse para o espelho do elevador. Mas, o caminho que tomou levou-a para longe de tudo o que conhecia. Estava frio. Eventualmente teria que voltar para trás ou entrar em algum lado. Decidiu continuar.
O rio, tão familiar, lembrava-lhe as tardes de Verão passadas descalça, na pedra aquecida pelo sol do paredão. Nunca sentia saudades desses momentos, porque achava que ao senti-las, os iria querer voltar a viver, e ela tinha há muito deixado de querer viver fosse o que fosse.
Começou a chover. Deu uma corrida e entrou na primeira porta aberta que encontrou. O ar estava abafado e húmido. No palco pequeno, uma banda tocava uma qualquer música de jazz para meia dúzia de pessoas. Sentou-se, pediu uma bebida ao empregado e tentou prestar atenção à música. “Conheço-a de algum lado”, pensou. Ficou mais uma hora. Quando saiu, apercebeu-se que estava totalmente sozinha. Não há duas ou três horas, mas há anos.
Voltou a casa pelo mesmo caminho que tinha feito. A noite fria, sem lua, aguçou-lhe os sentidos. Lembrou-se da última vez que tinham feito amor. Ele, sempre tão cuidadoso, tinha-a possuído ali mesmo, num banco de pedra, junto ao rio. Ela pressentiu a diferença. Mas ignorou-a.
Ao entrar em casa, sentiu pela primeira vez que o perdoava. Olhou para o relógio, três e meia. “Vou ligar na mesma”…
Era uma tarde, como outra qualquer tarde de Outono.
Invulgar, porque pela primeira vez em dois anos estava leve. Nunca mais se sentiria sozinha.
Tinha-se reencontrado…


Estela Ribeiro

(um texto repleto de intensidade da primeira à última linha... bravo!!!)

Fugindo da luz.. by Ricardo Faria

Publicado por D_Quixote em novembro 8, 2004 12:15 AM
Comentários

bravo...destes reencontros se faz pessoa mais inteira quem se encontra consigo...e a mochila vai mais leve. Não sei o que ele fez mas também eu lhe perdoo. porque assim nasceu este reencontro escrito. Parabens pelo reencontro antes de mais, mas sobretudo pelo poder de, sem ser rebuscada, ir de encontro ao elementar. E agora um segredo, pq ninguém nos lê: um homem cuidadoso que nos possui numa pedra do caminho, qual animal em cio, não será mais digno de usar a palavra amor? o amor estava lá...você viu-o...eu só posso imaginá-lo.

Afixado por: nina em janeiro 12, 2005 02:41 PM