novembro 11, 2004

...Ensaio sobre a solidão

......Depressa me canso de mim.
Olho à minha volta e só vejo recordações. Uma terna claridade (ou será obscuridade?) invade o meu quarto e me rodeia de mansinho. Já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio! Nunca soube o porquê de tal evento. É uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio; algo que nada traz a não ser paz. Mas trazê-la já é bom. E é nesses momentos que me sinto só. E sabem porquê? Porque não tenho com quem partilhar esse momento! Algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão. Dizer a alguém: “Vês? Estás a ouvir? A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo. Entendes?” Mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado; engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio. Já somos três. Estendo-me então no leito dessa luz (ou será escuridão?) e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade. Nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente. Nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só. Estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros; passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito. Sinto o seu respirar lento e compassado; é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração; e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado. No entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado. É um abraço puro mas forte; ingénuo mas apaixonado. É apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer. Porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolveram, o silêncio se aperta contra mim e me possui. Penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante.
O que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe. Penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta. O bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim. O tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade. É um estar sem vida, sem morte e sem idade. Apenas habita em mim numa eterna cumplicidade. Respiro o espaço que me rodeia. E a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia. Já tenho mais uma companhia. O doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho. Adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade.

Joaquim Nogueira

(normalmente são as pessoas que me enviam poemas e textos para serem editados, mas ao ler este gostei tanto que fiz questão de o trazer para aqui, com a devida autorização do seu autor)

The vision of HOPE by Ilona Wellmann

Publicado por D_Quixote em novembro 11, 2004 10:41 AM
Comentários

óla joaquim gostei do teu texto mas quero dizer-te que a solidão faz parte do ser humano, não é uma coisa boa nem má, julgo que o importante é que ela nos faz descobrir coisas novas, reparamos mais atentamente em coisas que muitas vezes nos passam desapercebidas. o teu poema ou texto tem força e seja a solidão que te faz escrever assim ou não cada vez que voltares a escrever lembra-te que é como se acendesses uma luz e que essa é a tua. um abraço

Afixado por: lobo em novembro 11, 2004 11:05 AM

Meu D. Quixote, quero felicitar-te por teres editado este magnífico texto do Quim... Encerra uma "beleza" tão medonha que é impossível ficar indiferente. Só demonstra a grandiosidade da sua alma... :-)

P.S- a música é perfeita...

Afixado por: Teresa em novembro 11, 2004 12:24 PM

Viva
Gostei muito do seu blogue. O BioTerra tb dedica muita atenção aos poetas

Afixado por: joao soares em novembro 11, 2004 03:21 PM

Esse texto é simplesmente maravilhoso! Quem é o autor? Como falo com ele? Esse texto faz parte de algum livro?
Desculpe a avidez das perguntas, mas ela é causada pelo pprofundo encantamento comj a obra de arte.
bjks

Afixado por: Claudia em novembro 11, 2004 04:10 PM

Cláudia, o autor deste texto é o Joaquim que, por sinal, também tem um blog que é o lobices (www.lobices.blogspot.com). Uma maravilha, não é? É uma obra de arte dizes tu e muito bem... ;-)

Afixado por: Teresa em novembro 11, 2004 04:21 PM

tava fazendo uma pesquisa e achei o seu blog maneirissimo passa la no meu e deixe o seu comentario valeu

Afixado por: Robson Santana em novembro 11, 2004 04:50 PM

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Afixado por: Robson Santana em novembro 11, 2004 04:50 PM

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Afixado por: Robson Santana em novembro 11, 2004 04:50 PM

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Afixado por: Robson Santana em novembro 11, 2004 04:50 PM

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Afixado por: Robson Santana em novembro 11, 2004 04:50 PM

Meu site é de poesias...

A solidão é o estigma de qualquer caçador!!!

Afixado por: Eduardo Gomes em novembro 11, 2004 07:21 PM

Eu é que agradeço a todos a vossa visita e ao Lobices a oportunidade de postar este texto incrivel... café quente para todos...

Afixado por: D Quixote em novembro 12, 2004 12:49 AM

Não me contentei com apenas este texto... tive que ir à fonte (blog de Lobices).
Muitos textos bons!
Parabéns... a Joaquim Nogueira
... e a você, João!

Abraço!

Afixado por: Marcus Vinicius em novembro 12, 2004 02:06 AM

este ensaio deve ser o anterior ao elogio da loucura...gostei do texto mas menos da melodia....a vida é a minha única vertigem por decisão própria. O silêncio é barreira ao ritmo e ao som se for exacerbado. Se me permites, não te entregues a esses momentos dessa forma apaixonada. Grita

Afixado por: nina em janeiro 12, 2005 02:21 PM