novembro 14, 2004

Sem freio

Como garranos num prado
como crianças no recreio
sem culpa sem pecado
sem decoro nem asseio

como cometas lustrosos
numa overdose de luz
como dois cristos formosos
juntos e ao vivo na cruz

fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias

como um poente na praia
em queda livre de Outono
como o dançarino da noite
cheio de fumo a de sono

como o sonho adolescente
que embate no mar real
ao ver a paixão ardente
perder-se no areal

fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias

como o acto teatral
da peça que tudo diz
um Shakespeare total
onde ninguém fica infeliz

porque o amor se cansou
acabar é então o preço
só a tragédia é bonita
só ela traz outro começo

fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias


de Carlos Tê

**.** by Piotr Kowalik

Publicado por D_Quixote em novembro 14, 2004 11:07 PM
Comentários

Um belo poema (como tantos outros, aliás) de Carlos Tê que, salvo erro, foi colocado em música pelos Clã no fantástico álbum 'Kazoo'.
Grato a quem se lembrou de o colocar aqui. Por vezes sabe bem ir ao fundo do baú buscar estas pérolas de modo a que a traça não se apodere delas, numa época em que se vive cada vez mais do descartável.

Afixado por: Paulo Fogg em novembro 15, 2004 06:09 PM

Tens toda a razão Paulo. Para mim, Carlos Tê é um dos maiores poetas na nossa lingua e parece sempre estar em simbiose perfeita com as pessoas para quem escreve letras para músicas. Neste caso com a Manuela dos Clã em mais um tema inesquécivel... eu é que te agradeço a visita e o comentário...

um abraço

Afixado por: D Quixote em novembro 16, 2004 12:00 AM

pois...e o talento não se gasta no Tê e vai por aí fora...concordo em absoluto com os comentários...posso assinar por baixo?

Afixado por: nina em janeiro 12, 2005 01:59 PM