novembro 19, 2004

anda alguém a desacertar o relógio do mundo ou foi encontrada uma mulher morta com sêmen nos olhos - IV

Chega um certo momento e a noticia entra no corpo, assim pão de jornal na barriga do mundo. Ouviu-se da boca do agoiro que naquela rua se tinha praticado um crime. A vítima era uma mulher de feições gregas. Fora ela violada com tanta brutalidade que o sol acordava em dores de nunca mais desejar nascer. No mesmo dia outra mulher olhava as nuvens... que terrível crime! Mas aquilo que acontece quando o gume da ignorância está afiado é uma perdição aos caminhos da natureza. O pastor evangélico apontou o dedo na direcção dos órgãos genitais dos membros da sua igreja, enquanto ele aponta o dedo os fiéis são atingidos por uma culpa no meio das pernas. Digo-vos eu que o corpo na sua essência não tem pecado a não ser a mentira que lhe deitam.
A noite está um forno, a mulher olha as nuvens e vai folheando as folhas do livro guardadas há muito nas gavetas do pensamento secreto. A mulher que foi violada, a que tinha as feições gregas, alem de ter a pele queimada, havia vestígios de sémen nos olhos. A frio ainda se fala do crime, uns e outros num jogo de adivinhar um culpado elaboram suas investigações, o velho do saxofone atribui á causa do crime uma desafinação hormonal. A tal desafinação hormonal é uma bomba filha de uma grande puta. Afinal quem matou a mulher? Tudo tem de ficar registado: a quantidade de álcool no sangue, o sexo, a idade, se era velho, se novo, se tomava café com açúcar ou se costumava pôr sacarina?!
O inspector que está a tomar conta deste caso é um tipo forte que quando anda arrasta os pés, tem um sotaque nórdico e um modo afável. Agora anda interrogando os moradores daquela rua, a dona Alzira a mulher da fruta não sabendo nada dá ares de saber tudo.
- Cá para mim o culpado é o Garcia da novela mexicana. Insistia ela.

de Lobo

(mais um capitulo deste conto fantástico)

..wandering.. by Lars Raun

Como já foi escrito nas páginas anteriores o movimento surrealista foi inaugurado em 1924 na cidade de Paris. Neste momento o relógio da torre marca as 11, num dos muitos exames efectuados ao corpo da vítima sabe-se que o autor do crime se deitou sobre ela assim uma vírgula no corpo da palavra. As autoridades pensam que há mão surrealista por detrás do crime e embora não havendo culpa formada foram detidos os seguintes suspeitos:

O poeta Alexandre que na hora de ser detido exaltava as qualidades do cherne peixe incluído na dieta dos pedreiros e outros conhecidos trolhas, tem ele, este poema traduzido em ucraniano, croata e checo. O Sem Pernas, cauteleiro de profissão é no entender do Ministério Público um disfarçado surrealista por conseguir jogar futebol e ter uma capacidade de corrida que ultrapassa a velocidade do pensamento. António Magia professor de música apanhado com a boca no meio das pernas de uma clave de sol. Foram pois presentes a tribunal os três surrealistas, assim chamados também por andarem a surrar sobrevivências. Estes três que por terem um aspecto de Deus nosso senhor Jesus Cristo formato calendário das barbearias, aos olhos do povo tinham que levar o selo de criminosos violadores. O autor desta história sabe quem foi o homem que matou a mulher que foi encontrada com sémen nos olhos.

Antes há que explicar porque é que o criador resolveu contratar um polícia gordo para guardar as portas do céu, escutemos o seguinte diálogo.
- Pedro tens que fazer alguma coisa!
- Fazer alguma coisa senhor, veja a minha idade não posso sair, o frio ia me fazer mal aos ossos.
- Olha por uns tempos alguém vai ocupar o teu lugar e tu vai pescar, olha vai pescar bacalhau.

Pedro foi pescar e Deus contratou temporariamente um polícia gordo para guardar as portas do céu. Avançando na história o verdadeiro assassino era o policia gordo que com o espirito das duas narinas guardava as portas do além e fazia descer ao mesmo tempo o corpo á terra onde se saciava de sangue e lúxuria. Gostaríamos de saber o que é que teria passado pela cabeça do Criador ao contratar um polícia gordo, recrutado numa das mais baratas empresas de segurança. É verdade que um polícia merece a confiança do povo e se o Criador o escolheu de olhos fechados mesmo sofrendo de miopia na mão direita é porque sabia o que estava a fazer. Descendo à terra na rua das lágrimas com chuva o realista tem uma nova teoria sobre a crença em Deus: acreditam em Deus todos os pobres que admitindo todas as pobrezas não conseguem aceitar a pior de todas, a solidão. Quando são apanhados em flagrante nostalgia atiram-nos á cara que Deus está sempre com eles. O algibeira descosida o místico da rua disse assim: - Deus está sempre comigo, está quando estou com a mulher e lhe faço filhos e com os filhos quando atiram as minhas dúvidas ao tapete. Enquanto aqui na rua o realista e o algibeira descosida defendem teorias diferentes sobre a existência ou não de Deus o criador que tudo vê e que tudo sabe mas que para cúmulo dos cúmulos não sabe aquilo que se passa na sua casa que é o céu lugar alugado aos anjos e aos pássaros em turismo. Se não sabe o que se passa na sua casa, não deve estar informado que tem uma nova inquilina, a mulher morta com sémen nos olhos.
Ora acontece que o polícia gordo esse que durante uns meses de eternidade guardou as portas do céu até ao regresso de Pedro o pescador, ele que tinha a chave dos enigmas e fazia acender a luz dos astros, resolveu o polícia confessar o crime que havia praticado. Estava ele vestido de corpo invisível quando entrou na casa de banho de um café e trocou a vestimenta invisível por uma roupa olhos de ver. Atravessava ele na passadeira quando reconheceu pelo andar o inspector que arrastava os pés. Logo ali se ajoelhou segurando as calças do inspector, este perguntou se ele tinha a tensão baixa? O outro respondeu que era um criminoso e que tinha violado uma mulher e toda aquela confissão saia a jorros. O inspector olha o homem ajoelhado a seus pés, tem uma expressão de cão danado, a seguir tira do bolso do casaco uma pistola e aponta aos olhos. Grande escuridão! Parece que desligou o interruptor da existência. Foi tudo tão rápido, de um clique a luz do nascimento, depois outro e vem a escuridão da morte. Tu sopraste nas narinas do teu amante, o paraíso está quando tens o amor e quando não o tens armas o teu negócio, um bilhete de ida e volta por essa estrada dentro. O paraíso és tu. Quem te pode expulsar?! Só o engano te atira para fora do teu lugar conquistado.

Publicado por D_Quixote em novembro 19, 2004 06:49 PM
Comentários

Meu, demais seu espaço! Aparece no eclipsis... tem link para cá...rs Beijocas! e Parabéns!

Afixado por: kcau em novembro 22, 2004 06:19 PM

Obrigado Kcau... passarei...

Afixado por: D Quixote em novembro 25, 2004 09:59 AM

este criador que vai inventando crimes e colocando personagens em patamares, dando mundos ao mundo. Sou a Dona Alzira da tua história e, não vendo fruta mas dou, porque não sei nada mas quero que saibas que gosto muito (não posso exagerar, vão pensar que é paixonite..lol) da tua escrita, já sei, eu e mais 500...eu preciso dizê-lo alto e bom som...estás a ouvir-me? não podes permitir o desacerto deste relógio...estarei atenta.

Afixado por: nina em janeiro 12, 2005 01:40 PM