Entrou e recostou-se no canto do salão. As abas desconfortáveis do fauteil, a
humidade das janelas, o soturno ambiente primaveril incomodaram-na
drasticamente, uma vez mais. Tentou abstrair-se.
A casa vivia virada para si.
As suas fantasias, ideais de um tempo desusado, metamorfosearam-se em imagens difusas, reflexos da imaterialidade do tempo.
Os livros, parceiros descontentes, permaneciam, estáticos, abrigando
religiosamente o pó do tempo, escondendo a ânsia nas leituras erróneas
renovadas.
A mesa do salão, de início do século, outrora magnificente e recheada, nunca
parecera sentir a necessidade da presença humana o seu porte permanecia
tranquilo e arrogante, diria ofuscante, e este seu comportamento não era
alheio à importância da sua função social: acreditar em si para poder acreditar nos outros.
O tapete espreguiçava-se pelo soalho velho de tábuas longas e emendadas e,
amiúde, contemplava adormecido as notícias da ocasião, acordando, por vezes,
interiormente ouvindo os namoros descarados ao tempo das suas vizinhas; ele já se sentira assim um dia, agora esperava apenas pelo seu momento, silenciosa e tranquilamente. A vida passara e a espera atendia o aviso da morte.
A sala encaminhou-se desconfortável e reconhecida e, sem necessidade de atestar a sua sobrevivência, encostou-se calma e serenamente no canto do salão, afastando adequadamente todos os seus pavores da infância.
de Nancy Brown
(mais uma grande participação da nossa amiga Nancy...)

EXPECTATION (Portrait) by Yuri Bonder
Publicado por D_Quixote em dezembro 7, 2004 10:52 PM"Consagração" de palavras em redor de objectos tão comuns e banalizados no dia-a-dia e aqui traduzidos com arte! Parabéns N e N ....Nancy e Nuno :)
Afixado por: conchazul em dezembro 7, 2004 11:21 PMeste é um poema de facto muito bonito. converter as coisas do nosso dia a dia soprando-lhes nas narinas que é isso que a tua escrita faz é uma grande vontade de viver, de transformar. olha gostei
Afixado por: lobo em dezembro 12, 2004 10:52 AMTenho que confessar que li o poema logo no dia em que o 'café' o publicou. Li-o uma, duas, três vezes... gostei logo mas sentia "qualquer coisa", uma tristeza enorme, algo assim... Agora, depois de mais uma leitura, concluo que a foto desta vez não ajuda e que afinal o poema é de uma beleza e sobretudo de uma serenidade introspectivas a toda a prova. Venham mais destes!
Afixado por: Paulo Fogg em dezembro 12, 2004 12:53 PMSó para quem nunca leu o que a Nancy escreve é que o talento dela é uma surpresa... para mim, já é sempre uma certeza em cada bocadinho de sonho que ela me envia por e-mail...
Afixado por: D_Quixote em dezembro 13, 2004 09:02 PM