Quando olhei para ti não havia mais nada,
só o atraso das minhas mãos em cuidar do teu corpo.
As palavras que depois usei, não viveram felizes para sempre na cabeça de ninguém
As outras experimento-as quando estiver ainda mais só.
Luisa ainda não bebeu o suficiente para que o desinteresse em relação a mim durma comigo.
Nunca tivemos duas semanas com o recheio dos dias bonitos a lamber-nos os olhos.
Nunca sentimos a falta do outro no cortar de uma fatia de pão.
Os nossos braços caíram juntos, uma noite, sobre o ferro da varanda do bar e foi só isso que aconteceu.
Ela podia trabalhar nos congelados de uma grande superfície e ainda assim ser uma mulher de temperatura muito elevada,
ter uma grande saudade de si durante e após o horário de serviço,
morar num lugar onde se chega depois da chuva.
“quantos cães existem dentro da tua solidão, soubesses tu a cor do focinho deles...”
Ninguém se mata para que eu possa meter conversa e uma mão no teu ombro,
ainda que eu urinasse aqui, entre nós, nenhum cogumelo nasceria urgente neste chão de pedra.
Ouves os meus olhos esmagarem em silêncio tudo aquilo que vêem?
Ouves também o grito desesperado do que não se recupera a entoar nas paredes da única casa?
Sabes que será por aquela rua que vou quando sair daqui com os ombros bem documentados pela tristeza de também a ti não te ter dito nada que amasse um estranho.
“será que quando morta o cabelo de uma mulher também sofre com o vento,,,”
A voz do corpo foi outra coisa que não conheci, do seu, por isso a fiz magra, corda última do lume de uma guitarra, no fim da noite, incêndio da língua na boca da noiva, foi o que ouvi.
Não lhe ter dito nada deu-me gravidade à voz, assustou as aves, causou choro nas crianças que àquela hora mamavam tranqüilas nos seios das suas mães de sangue.
Não lhe ter dito nada levou-me a mim para os braços das coisas tapadas quando as fazemos dormir.
de Miguel Patricio
(era já com muita saudade que aguardava mais um texto teu Miguel, tal como referi na pequena entrevista que demos na rádio, tu já fazes parte desta casa e igualmente da boa poesia que neste país hoje se escreve...)

Found by Haleh Bryan
Muiiito bom! Fiquei entupido depois de ler esta sua prosa poética, Miguel. (Chiça, de repente comecei a ouvir mais alto a minha respiração... ah!, esteve cortada durante a leitura...). Abraço.
Afixado por: Paulo Fogg em dezembro 14, 2004 06:21 PMUm texto muito interessante. Um magnifica fotografia.
Um Abraço para todos,
O Miguel tem de facto um talento incrivel... é dos poetas que se um dia vier a editar pode contar com a minha leitura fiel.
Foi o primeiro a enviar poesia e é dos poetas mais marcantes. Um dia já me disseram até que foi um dos poemas dele o melhor que já leram de poesia aqui.
Afixado por: D_Quixote em dezembro 19, 2004 04:56 PM