dezembro 19, 2004

anda alguém a desacertar o relógio do mundo ou foi encontrada uma mulher morta com sêmen nos olhos - VI

Andamos no nosso passeio, olho dentro dos teus olhos, no vazio deles tenho a sensação que começa a aventura do mundo. Olho dentro dos olhos e parece que vou dentro das casas. Tu és esta incerteza! Depois entrelaço as minhas mãos nos dedos escondidos da rua. Vamos tentar uma fuga, temos de escapar a esta rotina, aos teus pés estendo a estrada, ainda esta tudo como antes, ou quase... voltou à rua a musica do velho António e o pregão do sem pernas o cauteleiro está mais rouco. Olho-te apetece-me outra liberdade, nós ainda continuamos pobres, de uma pobreza que nos mostra como é grande o coração. E nós abrimos os livros e eles são pérolas. Tu gostavas de um pouco de poesia. O realista olha e aponta o dedo como se apontasse uma incerteza. A poesia não paga as contas, não põe gasolina nos automóveis. E logo vem de dentro de mim um poder que eu não sei de onde vem. Olhe! A poesia deixa-me chorar, não quero toda esta matéria, o pó que toda esta aparência levanta. A riqueza deles é uma máscara, ela cai e não há nada que ver, não há rios, nem flores, nem bichos a rastejar. A riqueza deles é uma vida gasta, nós andamos descalços, ricos na nossa liberdade, eles caminham num sapato apertado, andam naquela limitação de um horário, do dever conjugal e dos filhos que embalamos para esquecermos toda a frustração.

de Lobo

(de volta aos grandes textos)

untitled by Szymon Gdowicz

Está um dia mais frio do que habitualmente, a gorda apelidada aqui na rua de serviços secretos espalhou que o inspector andava doente, parece que os médicos tinham diagnosticado um tumor. Alzira deixou cair uma lágrima, o maldito Garcia da novela mexicana é que devia ficar podre; Alzira tinha simpatia pelo inspector, ainda mais por ele ter elogiado a sua receita secreta de bacalhau. Deus criador não fazia ideia que um dia viesse á sua presença um inspector da judiciária. Não sabemos nós a religião dele, nem nada sobre a sua vida pessoal, sabemos que nasceu num País frio, que gostava de bacalhau e por gostar muito de bacalhau, um dia depois de muita eternidade pediu permissão para vestir o fato dos sabores descer á terra e visitar a mulher da fruta. Alzira desejava também ter um encontro com ele, uma vizinha dizia ter comprado uma antena receptora de espíritos coisa que ela podia encontrar na loja asiática. Antes da descida do inspector á terra deram-lhe um holograma formato bacalhau com batatas. O realista sobre este assunto disse que se tratava de uma farsa, não cabia na cabeça de ninguém essa teoria de por os mortos a comer bacalhau com batatas, ele desafiava qualquer um a provar o contrário. Como as mulheres tem o dom de levar o argumento dos homens á água do seu moinho, Deus o criador fez-se mulher e convidou o realista a sentar-se perante as câmaras de televisão e discutirem sobre o assunto. O realista não tomava atenção aos argumentos da dama, passou todo o tempo a olhar-lhe as pernas e acabou por ficar sem resposta. Tinha sido ludibriado por Deus na forma de uma bela mulher. Entre as três da manhã e as quatro da tarde deu-se o encontro entre o inspector e a mulher da fruta.
- Está um lindo dia.
- Vai chover.
- É a vida
- Bacalhau com batatas.
- Era o meu prato preferido.
- Quando comias o meu bacalhau com batatas, babavas-te todo.
- Não ficava bem um espirito aparecer todo babado.
- Queres provar um pouco.
- A que horas vêm o teu marido.
- O meu marido hoje não vem.
- Achas que sou bonita?
- Pareces uma maçã rosada. De repente Deus o criador resolveu desligar este momento, dera-lhe o holograma do bacalhau com batatas, não um Cd-rom de sexo virtual. Enquanto tudo isto se passava chegou á rua das lagrimas com chuva um estrangeiro. O realista e o alfaiate, a algibeira descosida não falando a língua dele metiam-lhe aos lábios o bom vinho de receber e o bom pão de fazer ficar e ainda o discurso: tu falas a tua língua, mas quando provas o nosso bagaço, a nossa comida, quando metes a paisagem na veia dos olhos, nós percebemos que tu não és de outro planeta, as tuas dúvidas são as nossas certezas. Faço agora um parênteses para evocar a memória do senhor inspector, não sendo eu católico mas acreditando piamente na virgem do azeite sugiro que encomendemos uma missa do terceiro dia em virtude do pouco dinheiro, pois esta vida de poeta dá para uns cigarros e para uns comprimidos para a bronquite. A algibeira descosida e o velho musico estavam de acordo em fazer aquela homenagem. O realista embora não fosse crente não se importava em fazer a festa. Acabado o discurso todos bateram palmas e o estrangeiro que não tinha percebido nada dizia que sim com a cabeça e até deu uma nota de dólar para ajudar á missa do terceiro dia.

Publicado por D_Quixote em dezembro 19, 2004 12:27 PM
Comentários

A poesia enche a vida e enche todos os olhares que, nesta e noutras épocas, se cruzam connosco! Assim, espero que o Natal do Poetry Café seja tremendamente cheio de sentimentos, sensações e muita poesia!
Feliz Natal!Feliz Ano Novo!

Afixado por: serennablack em dezembro 19, 2004 09:09 PM

Linka meu blog no teu cara :) ai vai o código do button :

Afixado por: Marlon Schirrmann em dezembro 20, 2004 08:03 PM

Opa errei, ai vai:

Afixado por: Marlon Schirrmann em dezembro 20, 2004 08:03 PM

queria corrigir que nao è a algibeira descosida mas sim o algibeira descosida pois trata-se de um homem. respeito todos os comentàrios mas alguns nao percebo como o afixado por marlon shirrman. bem um abraço bom natal

Afixado por: lobo em dezembro 21, 2004 01:40 PM

tu, sim tu, fazes-me vertigens de irreal...como me sinto em casa dentro da tua alma. Fazes-me bem tb á pele...obrigado pelo café de poesia que me encheu medidas...Existes ou habitas as virtualidades e por aí ficas? sublime, essa forma de introspecção. Estou de queixos caídos venerando uma imagem que fantasio pelo nome: lobo (porventura senhor de todas as alcateias)!Exagerei?

Afixado por: Nina em janeiro 5, 2005 12:13 PM