janeiro 05, 2005

anda alguém a desacertar o relógio do mundo ou foi encontrada uma mulher morta com sêmen nos olhos - VII

Ainda é muito cedo para que te lances. Vais-te estatelar no chão das duvidas, tu nascida nesta rua, baptizada com o aroma da fruta, sabes que encostando o ouvido á terra se ouve o táximetro do taxi destino. Não penses que é só levantar a mão e de um modo decidido e até um pouco arrogante, dizer simplesmente, leve-me ao céu! Tu sabes que aqui aconteceu um crime, disseram-te que foi um polícia gordo e tu fizeste não sei quantas dietas com receio de que te achassem parecida ao tal polícia gordo. Estás a ficar um pouco perturbada, o que te tem ajudado é o tempo que passas na gruta dos comboios à conversa com o rapaz negro. Aquela não é uma vida que se gasta. Tu olhas na direcção do céu, parece que estás a olhar um pensamento muito longe. A mulher com sémen nos olhos pensa que deveria ter-se tratado com um psicanalista antes de subir aos céus, ficar uns tempos no purgatório das seduções. O inspector inclinando sobre ela o seu olhar paternal, desvendou num sorriso aberto todos os crimes. Serias tu capaz de desvendar os crimes praticados em nome do amor, o amor que se trava corpo a corpo, tal uma guerra que é a conquista de um território e que no amor é uma luta do nosso corpo pela conquista do corpo do outro. Enquanto dissertamos sobre o amor e sobre a guerra a mulher que tem sémen nos olhos está a massajar os pés do criador, quando Pedro regressar da pesca é quase certo que as massagens lhe vão fazer bem aos ossos. Quando Pedro já se encontrava no céu, ocupando de novo as funções de guardador, ele e o inspector passavam as tardes a conversar sobre a descida do dólar e as mil maneiras de cozinhar bacalhau. Havia o bacalhau grelhado no inferno, o bacalhau protestante e uma receita francesa que a mulher com sémen nos olhos conhecia. A dada altura um anjo da legião dos espertos disse que o que mais apreciava no bacalhau eram as asas. Nesse dia o céu estremeceu de riso.


de Lobo

(estamos quase a chegar ao fim desta aventura... mais se seguirão... prometo!)

time.... by emil schildt

O poeta Alexandre resolveu falar com um padre, saber se era possível a missa do terceiro dia. O padre disse que a igreja de Deus não era uma barraca das farturas. O poeta Alexandre olhou-o com espanto e começou a desbobinar umas verdades, que o Vaticano andava cheio de ouro, que o papa andava a viajar e que ainda recebia um subsídio por cada milagre inventado, que a igreja católica é um negócio como fazer armas ou produzir droga, que as crianças passam fome e que Deus contrata criminosos para guardar o céu, não falando dos seus representantes, cambada de padrecos a sexuados que nem para rezar missa do terceiro dia são capazes. O padre disse que ia ver o que é que se podia fazer e que ele não era um padre como os outros e que se o criador tinha escolhido um polícia gordo não era assunto para ser questionado, ele devia ter as suas razões. O padre quis saber se o poeta Alexandre e os amigos sabiam o pai-nosso, o poeta Alexandre disse que cada um sabia do seu próprio pai e o padre disse que com o pai-nosso mais o Iva ficava coisa menos coisa, 250 euros. A missa do terceiro dia lá se realizou na gruta dos comboios. Passadas umas semanas, o padre que tinha feito a celebração, escreveu uma carta ao cardeal pedindo renúncia dos votos que tinha feito. O padre que agora era ervanário foi viver para uma aldeia atrás do sol-posto. Quando Pedro o pescador e guardador das portas do céu e possuidor da chave dos enigmas piorava dos ossos, Deus enviava á terra um dos seus, esse ser vestido com o holograma da pobreza franciscana, rogava por umas gotas de remédio para as dores dos ossos. Durante muitos anos o padre que não era padre mas um curandeiro que curava os males das pessoas e dos bichos recebeu numa manhã de chuva a visita de uma pobre que andava por aqueles sítios a guardar as cabras e que dizia que lhe tinha aparecido a nossa senhora dos azeites.
- Que te disse ela?
- Falou do pecado da gordura meu senhor.
- E que pecado é esse?
- Comer com as mãos engorduradas e conceber os filhos cheirando a gordura durante o acto.
- Que idade tens?
- 12 Anos.
- Tu entendes-te as palavras da senhora?
- Fiquei um pouco confusa, quando o meu irmão mais novo nasceu, o meu pai cheirava a óleo, será que o meu irmão tem no corpo o pecado da carne com gordura. No momento em que esta parte da história decorre tu estás no teu trabalho domestico, enquanto passas a ferro olhas-me a dormir, estou a dormir profundamente, sonho que a virgem dos azeites me aparece, ela mostra-me o policia gordo, agora está mais magro, trabalha agora numa taberna, continua a dizer indecências e a dar arrotos. Tu olhas os meus olhos a abrir.
- Dormiste bem
- Sonhei coisas estranhas.
- Coisas estranhas?!
- Apareceu-me a virgem do azeite e um polícia gordo que no meu sonho era quem tinha cometido o crime ocorrido na rua à coisa de um mês.
- O tal crime anda a dar a volta à cabeça das pessoas da rua e desde a morte do inspector que as coisas andam piores.
- Coitado! Morrer assim…
- Achas que vai aparecer outro investigador?
- Não sei.
Depois levantei-me fiz a barba e fui comprar fruta. A dona Alzira perguntou se eu tinha ido à missa do terceiro dia? Disse-lhe que tinha ficado em casa. Ela perguntou-me se eu acreditava em almas do outro mundo? Na verdade acredito em almas do outro mundo e de outras freguesias, acredito em tudo disse eu. Ela com a sesta da fruta misturada com a sesta das novidades, contou que a igreja tinha um padre novo, parece que vai ser a perdição das mulheres, o homem é bonito, muitas vão ficar no confessionário arranjando pecados a toda a hora. Eu despedi-me e segui para casa para preparar o pequeno-almoço. Tu já tinhas passado a roupa a ferro e agora estavas concentrada no romance policial cuja leitura tinhas interrompido. Na nossa rua tudo estava calmo, parece que também no céu nada acontecia de novo, a não ser o inspector pegar num lenço branco e limpar os olhos da mulher que tinha sémen neles.
- Senhora, quero dizer... menina, gostava de lhe fazer uma pergunta, quando estive na terra andei a investigar, a tentar descobrir o autor do crime cometido contra si, infelizmente não consegui descobrir, se não é incomodo revelar-me uma pista.
- Foi um policia gordo disse ela prontamente.
- Sabe que cheguei a pensar que um tal Garcia podia ser o verdadeiro criminoso. Agradeço-lhe por ter dissipado esta dúvida da minha cabeça. Se me dá licença vou-me retirar. O inspector fez uma vénia e retirou-se em direcção aos seus aposentos. Instalado nos seus aposentos, acendeu o cachimbo e pôs-se a contemplar um carreiro de nuvens. Recordava os dias na terra, as pessoas que pareciam um carreiro de nuvens pesadas, acotovelando-se umas ás outras. O inspector de quando em quando deixava sair uma tosse seca, o criador na sua infinita compreensão embora muitos pensem que nas suas longas barbas esconde algo parecido ao código penal, aconselhava-o a reduzir o tabaco, a seguir chamou a mulher e pediu que lhe lê-se as notícias boas da terra, o que era um pouco difícil, a terra estava aumentada de guerras, de comida intragável e outros lixos que nem a reciclagem era capaz de resolver.

Publicado por D_Quixote em janeiro 5, 2005 12:38 AM
Comentários

Lobo
anda alguém a desassossegar a minha alma com chãs de tilia em colos quentes e bacalhaus com asas em todas as horas...e eu participo do riso do céu em que entrei, ou seja, do teu paraíso...adoro a tua escrita...inovas os meus segundos e passo a acreditar que purgatório é mero conceito! Nina

Afixado por: Nina em janeiro 5, 2005 11:38 AM

Que bom ver estes efeitos nos clientes... :-)

Afixado por: D Quixote em janeiro 9, 2005 11:02 AM