O estrangeiro que estava a passar uns dias na rua das lágrimas com chuva perguntava num espanhol arranhado que era aquilo da missa do terceiro dia, o sem pernas explicou que era uma tradição muito antiga, tão antiga como a questão do ovo e da galinha, uma tradição como o fado ou como a procissão em honra da nossa senhora dos azeites. O estrangeiro abanava a cabeça, mas não percebia nada e o cauteleiro mudava de assunto e logo vinha conversa de futebol, grande abada aqueles dez a zero e o estrangeiro sorria, parecia ás vezes um sorriso amargo... dez a zero é muita fruta mas são coisas que acontecem depois o poeta Alexandre recitava um poema, o poeta Alexandre recitava um poeta inglês, e o cauteleiro enchia o copo do estrangeiro e bebia de um gole, como se desse a beber a fortuna, a um mundo cheio de sede, um mundo onde faltam mãos apertadas e firmes testemunhando uma convicção de liberdade. O estrangeiro ouvira falar da revolução, da guerra colonial, não sabia nada , não sabia que fora uma revolução militar, ouvira falar de Amália Rodrigues, do Eusébio e pouco mais e até julgava que eram nomes de generais.
de Lobo

"Contour" by Kharlamov Sergey
(e chega assim ao fim esta nossa aventura... espero que tenham gostado tanto quanto eu...)
Tu estavas na missa do terceiro dia, olhavas para mim e olhavas como quem tenta agarrar qualquer coisa ao longe, a paisagem parece que vai desaparecendo dos olhos, não confundas os meus olhos com as tuas lembranças de criança, tu olhas-te as outras pessoas, escutas-te as gargalhadas, coisas impróprias eram permitidas, desces-te a blusa, se a noite descesse a blusa via-se no bico do peito a ponta de uma estrela. Sozinho com o resto das pessoas estava o estrangeiro, picaste-lhe o olho, o piscar do olho ainda é tão universal como a palavra taxi, ele pegou um torrão de terra, ficou parado e deixou seguir o desfile. Amanha ia deixar aquela rua, apanhar o comboio...mas ainda queria reter certos gostos, saber que são incompletos, quando queremos que sejam absolutos.
O estrangeiro sentou-se nas escadas do comboio, havia um destino e ele sabendo, pouco importava. Tinha na boca certos gostos, imagens de pessoas conhecidas num dia e que ficam condensadas numa comunicação de toda a vida. O estrangeiro chamava-se Franco, soa a nome italiano, embora falasse inglês. O comboio continua, a mulher que mora no céu, está acordada e vigilante, nos olhos dela não há lágrimas, não há sémen...se agora nesta nossa rua alguém pusesse uma música a tocar, podia ser tudo, menos a valsa do policia gordo. Alzira comparava os movimentos de uma dança, ao movimento das mãos a descascar, tu e o estrangeiro enroscaram-se como o bicho na pele da tua fruta. Quando somos amantes de alguém, parece que as ruas ficam desertas. O estrangeiro continua na sua viagem, Deus a escrever a sua criação e um dia chegará aquela rua um contador das outras coisas do céu e das alma penada de um policia gordo.
amigo sofrego não tive oportunidade de participar ou melhor te dar o mais que merecido retributo mas vais recebe-lo. Entretanto deixo-te um grande abraço e votos de um bom ano
Afixado por: ccc em janeiro 13, 2005 08:08 AMnão percebi....acabou? haverá um último revenge?ataum matam-se os personagens todos ou arrumam-se nas prateleiras de cada um? e o polícia gordo? e a dona alzira? e a mulher com sémen nos olhos, o bacalhau com asas? porra, há coisas que não deviam acabar!!!não digo mais nada...fiquei xateada, canudo(o poeta alexandre devia fazer qualquer coisa).
Afixado por: nina em janeiro 13, 2005 10:40 AMCCC... que saudades de te ver por aqui... espero ver-te mais amiude neste ano de 2005...
Nina... mais, mas mesmo muitos mais, trabalhos do Lobo se seguirão... espera para ver...
Afixado por: D Quixote em janeiro 16, 2005 11:33 PM