Lembro-me do momento exacto em que descobri que queria ficar contigo mais do que um fim-de-semana.
Estava apanhar sol na varanda da tua casa. Adormeci e tu cobriste-me com uma toalha, para que eu não me queimasse. Bastou isso. Não foi preciso mais nada.
Vivemos de pequenos gestos que nos tocam com força.
Quando era pequena gostava de me fechar no meu mundo e de brincar sozinha com as bonecas. Inventava histórias intermináveis, e lia livros de Fadas, aos poucos elas transformaram-se nas minhas melhores amigas e deram-me o dom de acreditar que tudo é possível. Mas eu deixei de brincar com bonecas, e as Fadas deixaram de me visitar. Crescer tem destas coisas, e a correria de todos os dias rouba-nos um pouco da nossa essência.
Lembras-te de quando subi a uma montanha só porque queria estar mais perto do céu? Ou quando deixava tudo, para apanhar o comboio? Três horas depois estava a bater à porta de tua casa, e tu recebias-me com um poema.
Um dia dei-te um barco no Tejo que só navegou nos meus sonhos e nas tuas poesias. Mas bastava isso e o chapéu de palha que me ofereceste e que foi levado pelo vento.
No Inverno ocupamos a cabana de madeira que havia na praia, onde não vivia ninguém. Fizemos muitos piqueniques na varanda com vista para o mar. Nós sorriamos porque naquele momento não precisávamos de mais nada. Depois eu contava-te histórias para adormeceres e vigiava o teu sono. Sempre gostei de ficar a olhar para ti enquanto dormias.
Escreveste muitos poemas nesses tempos, depois davas-mos e eu lia-os para ti. Entrava neles descalça e eles passavam a fazer parte de mim. Por vezes ainda sou perseguida por algumas dessas tuas palavras que me vestiam de cores, sempre que era tocada por elas. Eu sentava-me no sofá, perto de ti, e fingia que estava entretida com algum livro. Gostava de te ouvir desenhar palavras no teclado do teu computador. O silêncio que tomava conta de nós tinha cheiros e sabores, e éramos embalados por ele. Ser íntimo de alguém é saber partilhar os silêncios.
Por vezes lembro-me da tua vizinha do prédio em frente. A velhinha espiava -nos com curiosidade nas noites em que não conseguia dormir por causa do calor. Eu achava que ela era a nossa Fada – madrinha e que nos protegia de longe. Quando eu dizia essas coisas tu sorrias, como se não acreditasses. Agora tenho mesmo a certeza de que ela tomava conta de nós, e que gostava de nos ver aos pulos pela sala, com a música altíssima às três da manhã. Nós riamos e dizíamos que estávamos a dançar. Ela era o nosso único público e aplaudia -nos com o olhar.
Quando nós partimos ela sentiu-se sozinha e nós ficamos sem protecção. Até as Fadas gostam de se sentir acompanhadas, nem que seja pelos vizinhos do prédio em frente.
Foi nessa altura em que eu e tu seguimos caminhos diferentes. Tu foste para o frio e eu fiquei com o sol e o mar.
Ainda me lembro daquela boneca de neve que um dia fizemos, e que só durou o instante de tirar uma fotografia. Depois veio um rapaz e desmanchou-a com um pontapé. Lembras-te de termos seguido o rapaz? Atiramos-lhe uma bola de neve, e eu gritei qualquer coisa que ele não entendeu. Era tão linda a nossa boneca, mas ainda guardo a fotografia.
Muitas vezes tive vontade de ir ter contigo e ficar também eu lá no frio, mas tinha que seguir em frente no meu caminho. Tinha pessoas e sítios para conhecer, e não podia fugir a isso porque tudo isso tornou-me na pessoa que sou hoje.
Ainda vou até à praia no Inverno e fico lá sentir o sol. A nossa cabana já não existe. Às vezes o vento traz-me a memória da tua gargalhada, e sou abraçada por ela.
Hoje lembrei-me de ti ao ler um poema que escreveste. Ainda entro descalça nas tuas palavras, ainda as leio em voz alta. Mas tu sabes que tenho demasiada vida em mim, e que por isso mesmo, penso que estou sempre perto do fim. Não gosto de esperar, nunca gostei. Gosto de viver de imediato, sem adiar nada. Por isso não consegui esperar pelo teu regresso e encontrei-me no trilho que segui.
(não consegui resistir a postar um dos textos mais bonitos e bem escritos que já alguma vez li)

Zochna by Artur K.
não resisto a deixar aqui um elogio á tua poesia...sabes, na tua também se entra descalça, espécie de purificação: a verdade do que somos. Os trilhos que escolheste fazem parte dessa construção chamada Claúdia Souto.
E não saber esperar, correr com medo que a vida nos possa surpreender, que a morte nos possa espreitar a uma qualquer esquina te fz amar intensamente tudo, a voar, mas a ser nesses pequenos momentos que tão bem se nota fazerem parte de ti...
Também Cláudia...
Também assim...
Um estilo muito próprio e espantosamente poético. Estas são as novas mulheres, cuja independência é a bandeira em haste e contra todos os ventos. Conheço algumas mulheres assim e elas são o futuro. Contudo não discuto aqui a imensa e irreparável perda, para a humanidade.
Afixado por: Nancy Brown em janeiro 20, 2005 09:16 PMTens razão Nuno, um texto muito bonito. Há livros que depois de começar a ler, só consigo parar no fim. E este texto pertence a esse grupo.
Cláudia, gostei muito das tuas palavras. Sou muito diferente de ti, sou daquelas pessoas que esperam pacientemente e penso muitas vezes que é exactamente isso que me falta, viver o imediato. Como tu, considero os pequenos gestos os mais importantes. E os mais elucidativos também.. Espero voltar a encontrar-te aqui :)
Pois... :)
Afixado por: Paulo Fogg em janeiro 21, 2005 11:02 AMparece que enquanto lia, recuava a um lugar e á memória de sitios e de alguem que tinha uma história bonita, onde o comum das coisas tinha um mistério, agora em vez de envelhecer eu sou mais jovem nas coisas que caminho e eu nem sei mais que dizer. é tao bom haver pessoas assim tão bonitas
Afixado por: lobo em janeiro 21, 2005 05:09 PMescrito descalca, como deve ser.
Afixado por: RC em janeiro 22, 2005 01:45 PM