janeiro 26, 2005

Poetry Café

O Poetry, sabes nunca fiz uma jangada, não por ter olhado as arvores, preocupado com a madeira não. Tem ardido tanta! O rio está cá, com as margens costuradas.
Quando lhe apanho uma malha solta, uma linha, escrevo para ti.
As botas na loja, muitas vezes na mão, sabendo que as tenho na mão ainda as descalço, entro na água.
Um tronco, cabeça e membros, outra vez o tronco agarrado a outro tronco.
Talvez seja assim que se faz uma jangada.
As palavras arrumam-se em nós, estacionam no espaço que temos para elas.
Oxalá o espaço seja sempre a liberdade da fuga que nos prende, aquele nó humano,
desatado, vindo das entranhas.
Oxalá o mundo seja verdadeiro para nós, como a nossa altura no bilhete de identidade,
há quanto tempo foi? Não importa.
Como posso dizer quem sou a quem se cruza comigo no autocarro, se eu mesmo me cruzei
nesse naufrágio dos dias todos.
Há coisas que só entram na pele à distancia, fora do sitio para onde vamos, porque não vamos juntos.
Temos de nos unir separados, para que não nos sintamos sós, temos de nos unir separados.
Eu não sei para quem escrevo, amei uma mulher, vou à casa de banho para mil tarefas,
o pequeno almoço raramente o saboreio.
Uso umas calças para o amor que ainda não chegou.
Pisco o olho para quem está em mim, no momento em que me lês, pisco o olho para quem está em mim.
Letras são coisas que não consigo usar nos tênis quando vou trabalhar, qualquer rapariga de sapataria sabe do que falo, eu gosto das raparigas do comércio calçado.
O número está no avanço do dedo grande do pé, a palavra é uma disponibilidade que recua na voz.
Ela mora lá para ganhar o seu dinheiro, a minha esperança é ser amado mesmo assim...
Se dormes num carro roubado, problema teu, esse sono nunca será uma vida inteira propriedade tua.
Escrever é isto, não ter desculpa, ejacular dentro da vagina de uma mulher e amar o resultado,
azar se foi errado.
A tesão é, será sempre um problema teu.


de Miguel Patrício

(bem... acho que a este ninguem ficará indiferente... diferente mas brilhante...)


Drinks, anyone? by Yvonne Ng

Publicado por D_Quixote em janeiro 26, 2005 12:14 AM
Comentários

não acredito que está a tocar damien rice! eu adoro este gajo... confesso que já não o ouvia há algum tempo mas a blower's daughter faz parte da banda sonora do closer. fiquei com saudades! i can't take my eyes off of you.

Afixado por: eternal sunshine em janeiro 26, 2005 09:29 AM

gostei, o poetry continua a ser um espaço de coisas grandes.

Afixado por: lobo em janeiro 26, 2005 10:54 AM

Miguel, hoje o café que tomei veio com um sabor almiscarado...seria o cheiro da tua brisa, do teu planeta de letras, do teu semen, dos tenis ou do teu sono proíbido? Devo-o a ti ou ao Damien? Bem haja aos dois.

Afixado por: Nina em janeiro 26, 2005 10:00 PM

Miguel, hoje o café que tomei veio com um sabor almiscarado...seria o cheiro da tua brisa, do teu planeta de letras, do teu semen, dos tenis ou do teu sono proíbido? Devo-o a ti ou ao Damien? Bem haja aos dois.

Afixado por: Nina em janeiro 26, 2005 10:00 PM

Este ciclo não podia passar sem o Miguel, é já um dos nomes incontornáveis da poesia desta casa... e aqui mais uma vez o mostra porquê!

Afixado por: D Quixote em fevereiro 7, 2005 12:40 AM

forte como sempre...beijo..Bia

Afixado por: bia em fevereiro 10, 2005 05:36 PM