Não há mais nada para reflectir.
Depois da morte a capacidade de reflexão fica
reduzida à expressão máxima do silêncio.
É como uma flor morta sobre a campa
no cemitério de Albufeira.
Supõe-se que as plantas estão sempre com viço;
uma forma de prolongar a memória nas visitas
escassas conforme o tempo vai bebendo
o sangue nos carris.
Na mão direita o lápis faber número um, e uma
borracha mole, verde, na outra mão, compõem a sombra no rosto
de António Aleixo; servo de deus, crias um rosto igual
ao do livro da quarta classe, e por baixo
uma das quadras mais conhecidas do poeta.
Sonho-te com o engenho de furar metais, e outras ferramentas,
a coleccionar anilhas e parafusos que servem
para a utilidade nula da respiração.
Admiras como um jardineiro que poda as plantas
e ri com as flores raras e tardias de uma estação qualquer.
A reflexão sobre a sombra é o tamanho
do eco invisível,
a dor que se constrói entre um passo
e outro passo, até que o nome seja a luz
frágil da lareira em fim de conversa.
O cão ladra na cozinha e a tua voz
acaricia os pratos e os talheres.
A conversa flúi como um rio que se faz na chuva
e a doçura das frases fica agridoce
até que te substituis pelas imagens da televisão
com os mortos amontoados no Sri Lanka.
A morte é uma miragem da literatura.
de José Félix
10.01.2005 (inédito)
(mais um poema teu lindo... e de novo sobre a morte, que eu muito pessoalmente acho que é um dos teus grandes temas...)

Calla by emil schildt
a morte envergando um véu desenhado por ti nem é tão assustadora assim...o nada, a miragem da literatura...podia dizer que estou surpreendida mas seria mentira. Já te li...é fácil nos habituarmos ao que gostamos. Será dificil deixar de aqui vir....essas ausências devem apaziguar-te o stress, ou, de alguma forma, refazerem o medo das suas sombras. Obrigado José Felix. É sempre tão bom aqui vir e te encontrar. Uma flor viva a cheirar um momento teu.
Afixado por: Nina em fevereiro 10, 2005 12:06 AMMuito, muito bom, José!
Afixado por: Paulo Fogg em fevereiro 10, 2005 05:38 PM