março 03, 2005

Não sei se os olhos são frios

Não sei se os olhos são frios! Gostava de saber quantas pulsações batem dentro do tronco das arvores quando as raízes apertam as mãos dos solitários. Não sei se os olhos são frios, nem se a noite é a casa do nosso abandono. Gostava que o amor fosse a luz cheia do mundo e que o coração iluminasse a terra e os oceanos e houvesse em todos os lugares pensamentos mais fortes e poemas mais suaves. Não sei que tesouros há para guardar! Mas gostava que a chuva fertilizasse a seara e o fogo aquecesse o pão e a música embalasse o espírito e a cor acendesse o sol e a nuvem dos caminhos. Não sei se os olhos são frios mas creio que o beijo húmido toca o chão e as lágrimas tocam as estrelas e a nossa paixão vai além do que se pode conceber. O amor é caminhar, caminhar com o trigo, perceber o sentido do joio e provar o pão universal; ficar feliz com os que estão aliviados de dor, aliviados de culpas e de ódios. Não sei se os olhos são frios nem se as tuas mãos se distanciam dos meus cabelos. Mas eu gostava que a música tivesse o mesmo sabor da água e que o teu trabalho fosse a força dos que andam fracos de esperança e desabituados de importância. Não sei se os olhos são frios. Eu sinto que o caminho é o amor. Não pode haver amor onde existam algemas a prender, nem ódios como pedras nas páginas dos jornais. Eu quero fazer dentro de mim o amor, fazer assim como se faz um apertar de mãos, fazer assim o amor quando o pão que se reparte é como a verdade dos amigos que não são aparentes e que as guerras são os livros da nossa consciência. Gostava que a minha luta fosse o poder da minha transformação, gostava que a justiça filtrasse todos os venenos e a compreensão apaziguasse todas as culpas. Não sei se os olhos são frios mas acredito que podem ser quentes e cheios de fogo como as mãos que embalam a cria e aquecem o universo. Não sei que tesouros há para guardar mas acredito que é possível adormecer com a tranquilidade dos rebanhos e despertar com a tempestade no coração dos guerreiros. Sei que ainda trago dentro de mim, medos e ódios, mas vou tentar que a solidão não me cerque e que Deus seja o meu refugio interior.

de Lobo

(não sei se são apenas os meus olhos... ou acabei de ler mais um grande texto teu amigo!)

untitled by Yuri Bonder

Publicado por D_Quixote em março 3, 2005 12:32 AM
Comentários

Lobo...
Percebo o que dizes. Sei o que dizes.
E partilho as tuas dúvidas.

Afixado por: Nuno F. Duarte em março 3, 2005 12:10 PM

Já te li e encheste mais um pouco do meu dia com as tuas vivências. Onde estiveres, estou bem.

Afixado por: Nina em março 3, 2005 02:07 PM

olá

gostei do vosso blog, tem uma qualidade rara que é a de criar um ambiente, neste caso um ambiente de timbre intimista, melancólico,sereno.

parabéns.

se quiserem, visitem o meu blog.

um abraço

Afixado por: jackx em março 3, 2005 08:49 PM

Lobo, adorei o teu post, e compreendo-te e estou em sintonia.
Parabéns.

Afixado por: Maria Clarinda Galante em março 4, 2005 01:11 PM

O Lobo não escreve... tatua sentimentos no fogo das palavras que atira... soberbo... soberbo...

Afixado por: D Quixote em março 11, 2005 12:21 AM