O ultimo dia do ano não tem tempo:
o relógio pára na espuma das ondas
que repetidamente desaparece na areia.
Os meus passos arrastam memórias
em sulcos entranhados de decisões
e a tarde acompanha o sol espelhado no mar.
Pela manhã, calcei as minhas botas
mais confortáveis e enterrei os pés no quintal.
Ao lado da laranjeira ergui-me
com braços de ramos verdes a sentir a brisa.
O copo de limonada estava junto a mim
sobre um banco de madeira pintado de azul claro.
Do baú tinha já retirado o papagaio multicolor
que agora esvoaçava agarrado à perna do banco.
Lembrava-me as mil cores da minha infancia:
canetas de feltro em riscos irreversíveis livres.
O sabão cor de rosa guardado para dias especiais
estava já no lavatório, junto a uma toalha lavada, verde alface.
Tinha os pés quentes.Gostava de me sentir
preso à terra entregue aos deuses das árvores.
Fechava os olhos de tempos a tempos
e sentia seiva surgir na folhas verdes.sentia
folhas planarem sobre mim
e cores, laranjas, pesarem-me no coração.
Ouvia a minha mãe dizer que eram boas laranjas.
O rádio tocava em "repeat"
a musica que me acordara pela manha
e exaltava uma noite para comemorar.
Tinha deixado sardinhas frescas à porta do quintal:
os gatos sorriam bigodes deliciados.
depois deste dia nunca mais os veria: talvez no ano seguinte.
Gostava deles assim.
A tarde, na praia, ofereceu-me a noite,
que se aproximou com olhos tintos de vinho
na mesa com toalha branca e
uvas passas.
Estava tudo preparado.
a lenha para a fogueira escondia-se num cesto velho que encontrara na garagem.
Não comi as uvas passas mas acendi a fogueira no quintal
e adormeci em memórias trémulas de chamas
que me aqueceram a noite.
de AMAC
(já tinha saudade de ver a tua poesia por aqui amigo, sabe bem ler poemas assim em dias de chuva como este... um abraço)

Tourists by Heiða Helgadóttir
gosto muito deste poema...tem cor e tem cheiros, e dá vontade de entrar nele e fazer parte dele, sermos mais uma personagem.
Gosto muito deste poema...
gostei e a natureza deve pensar como eu. que bom ser também por poetas assim alimentada
Afixado por: lobo em fevereiro 23, 2005 10:50 AMA intimidade deste entardecer ultimo, com o prazer de umas botas confortaveis, uma limonada, um papagaio colorido da infância, o sabão cor de rosa, a toalha branca trazida pla noite, as passas e a lenha escondida, tudo de um requinte detalhista morno, agradável, permitindo, a quem te lê, de usufruir deste final mágico de um tempo sem tempo. Nunca tinha lido nada teu, com toda a certeza. E adorei. Espantástico.
Afixado por: Nina em fevereiro 23, 2005 04:15 PME acordaste, com toda a certeza, de alma lavada por um sono que se adivinha ter sido tranquilo, sereno... Paz é o que me transmite este poema, aquela paz das coisas simples, como quando os verões, na minha infância, tinham exactamente os três meses que duravam as férias escolares, em que os dias, longos, longos, davam para nadar, imaginar aventuras e também dormir longas sestas... (ai as divagações... ai as saudades...)
Gostei, sim senhor! Muito!
As vezes escrevemos poemas maus quando comecamos por tentar fazer aquilo que achamos que um poema devia ser (em vez daquilo que a vida e, ou podia ser). Este e muito bom.
Afixado por: RC em fevereiro 24, 2005 12:02 AMHá momentos da nossa vida em que todas as poesias do mundo falam de Amor, Solidão, Angústia, Morte. E nada mais. depois há momentos em que lemos textos assim e despertamos para uma nova realidade. Mais límpida. Mais "real". Que fala de coisas que todos vemos, mas que poucos (d)escrevem.
Acho que falo por todos se te pedir para continuares.
Um abraço, e força nisso!
Obrigado pelos vossos comentarios.
Fico muito contente que a vida não seja toda minha como eu às vezes a sinto, mas nossa.