março 12, 2005

Diário da tua ausência – a chuva no vidro

Eu já não me consigo lembrar de nós. Estranho porém que não te consigo esquecer a ti. Mas a imagem de nós juntos parece já tão distante e indistinta como o vidro baço onde as gotas de chuva fria deslizam no pó do pára-brisas do carro sujo. Ligo as escovas e a minha visão da vida volta a ficar nítida por mais uns segundos até voltar ao mesmo padrão disforme do vidro molhado... será o amor tanta chuva que nos embacia as janelas e não me deixa ver… não me deixa seguir o meu caminho…

E assim espero sozinho neste sábado à noite perto de tua casa. Dentro do carro apressadamente estacionado numa rua tão normal como tantas outras normais, distinta apenas por ser o local onde combinamos encontrarmo-nos e onde aguardo pacientemente por alguém que nunca chega, nunca vem, nunca está, nunca é…

Vou contando ansioso os minutos que não passam, seguindo com os olhos os carros que chegam com os faróis no escuro como olhos esgazeados, como borrões indistintos de luz no vidro embaciado mas nenhum deles é o teu, já não me lembro da última vez que foi o teu. O teu não brilha no escuro da minha espera é apenas lembrança do pouco que ainda me consigo lembrar.

Já passaram duas horas… tu já não deves aparecer… tanto tempo depois de te teres ido embora, esperava que nos reencontrássemos de novo. Esperava que o tempo te tivesse feito perceber que a borboleta que és um dia cansa as asas e a árvore que tenho sido, onde sempre pudeste pousar, tem os braços cansados como galhos de árvore velha que morre e onde os passarinhos já não fazem ninhos. Esperava que percebesses que não sou eterno como o meu amor por ti nesta eterna espera.

Tu já não deves aparecer… dói, mas é verdade! E a visão borratada do mundo continua, não sei se pela chuva que bate na vidraça do carro se pelos olhos rasos de lágrimas que sofregamente enxugo num suspiro. As gotas salgadas que me rolam na face como as gotas pequenas geladas que deslizam pelo vidro abaixo lá fora. Às vezes gosto de imaginar que somos duas gotas que deslizam no vidro, na estúpida probabilidade matemática de nos unirmos algures no caminho numa gota só.
Mas não deve ser hoje… tu já não deves aparecer… e eu já cá não estarei.
Limpo as lágrimas, limpo o vidro, dou à chave e sigo em frente.


de João Natal

Rainy Nights by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em março 12, 2005 01:13 AM
Comentários

Estava-me a fazer falta ler coisas assim, certamente que estas coisas não se leem todos os dias mas valem por muito tempo. parece que hoje não foi só o sol que entrou da minha janela. fico pois muito feliz

Afixado por: lobo em março 12, 2005 10:17 AM

Mais uma página deste diário que adorei ler. A imagem da borboleta e da árvore ficou a pairar no meu pensamento. É uma imagem linda que transmite, pelo menos a mim, uma segurança e uma tranquilidade incrível :)

Afixado por: Maria em março 12, 2005 12:02 PM

Já me aconteceu, João. Revi-me. É por isso que com textos poéticos destes fico assim... Obrigado.

Afixado por: Paulo Fogg em março 12, 2005 01:40 PM

Desculpem amigos... mas MERDA PARA OS SPAMMERS... ando desde ontem a limpar comentários feitos por máquinas!!! :-(

Afixado por: D Quixote em março 12, 2005 02:35 PM

joão natal, é tão bom entrar sem bater e ver a chuva cair nos outros, ver-te chover...
que bem me fazem essas tuas ausências..parece que te beijei doce na face e te vi partir sem rumo...
vai deixando esse teu diário connosco.

Afixado por: Nina em março 12, 2005 09:30 PM

Cada gota de chuva é como cada lágrima que cai. Limpa e acalma. Protege. Celebra a vida. As tuas palavras são gotas de chuva na tua vida. E na minha...
Ler-te, é sempre um maravilhoso exercício de intimidade.
Não pares. Nunca!

Estela.

Afixado por: Senhora das Estrelas em março 12, 2005 09:47 PM

Eu achei a coisa mais linda esse poema...infelizmente é a realidade de muitas pessoas...me dói na alma só em pensar q isso possa acontecer comigo...pq ñ ter mais a pessoa amada por perto..sei lá..é terrível...bom...muito legal mesmo esse trekinho aki...

Afixado por: line em março 13, 2005 12:17 AM

Gostei. Estamos a precisar de gente nova a escrever.

Afixado por: José Viriato em março 13, 2005 04:13 PM

As borboletas são efémeras como os momentos. Logo se vão e nada mais deixam senão recordações.
Dificil é ser arvore. Exige estar sempre presente... estar disponivel... compreender... aceitar... enfim, exige saber amar.

Afixado por: Rui Vieira em março 13, 2005 06:56 PM

Sim... difícil é ser árvore... Todos devíamos ser borboletas de vez em quando.

Afixado por: Ana em março 13, 2005 11:17 PM

Obrigada!

Afixado por: Cientista em março 14, 2005 01:02 PM

Que amor tão bonito!!! Não apenas o que seniste por essa pessoa que te foi, é e será muito especial (não precisamos conhecer-te muito para o saber)... mas também aquele que ainda sentirás por outro alguém, apesar de este ser para ti o cenário mais estranho e improvável... Obrigada por expressares tão bem o que vai dentro deste coração... Obrigada!!!

Afixado por: catarina em março 14, 2005 08:56 PM

Obrigado amigos... são as vossas palavras o meu alento para ir escrevendo! E assim, este meu conto de ficção, começa a ganhar pernas para andar...vamos ver onde pára!

Afixado por: D Quixote em março 18, 2005 10:22 AM