Eram apenas sons. Acordes de música breve e desigual, parecidos com os meus sonhos distantes e incertos. Eram apenas sons, mas por eles subi como se a escada do paraíso fosse o caminho certo para mim. Eram apenas sons, mas em cada um deles via as curvas estreitas da minha alma branca e salgada.
Cada escada uma nota, cada passo, o destino mais perto de mim.
Sorri, como se os segredos que escondia não fossem mais do que palavras. Apressei os sentidos e preparei o corpo para a certeza de te saber ali, por mim, para mim.
Chegaste carregado de sons e de medos subtis, e soubeste que era eu que ali estava, por ti, para ti. O olhar foi breve e bastou para que eu sentisse que tu eras a imensidão daquela noite de luz clara, branca e salgada como a tua alma.
Dei-te uma mão molhada pelo medo e tu seguiste o meu corpo ansioso e sozinho. Pertencer-te nunca foi a dúvida.
Em cada passo que demos descalços, senti que voava pelas escadas do paraíso branco e salgado que éramos nós. Deixar-te começava a ser a dúvida.
Não consigo deixar de te dizer que nunca, em parte alguma da minha vida, me senti como me senti neste pedaço da minha vida contigo. Tudo, em cada canto daquela noite, me disse que tu eras muito mais do que eu queria que tu fosses. O teu colo, tão profundo e quente de todas as lágrimas que sempre choraste… Os teus braços, perfeitos em mim, que me fizeram esquecer que era mortal e feita de pó e feita de sonhos. Para mim, tu eras o sonho da realidade.
Dessa noite, trouxeste uma caixa de areia branca, salgada pelo mar que lhe deu a vida, salgada pelas lágrimas que chorei e que lhe tiraram a vida. A ferro, porque tinha mesmo que ser, porque o infinito é finito quando a distância e a vida nos fazem perguntar uma e outra vez porquê. Porquê? Porquê?...
Consegues ouvir o que ouço, quando fecho os olhos e peço que as tuas palavras sejam apenas pó? Grita, grita comigo porque eu não posso deixar de te dizer que sempre te quis. Pára de me olhar e olha para dentro do muro de pedra que és, que ergueste e que o meu amor não conseguiu destruir…pára de me olhar, porque o meu medo é tão grande e eu não consigo perder-me, outra vez, nos braços de alguém que eu nunca soube se me quer… Pára de me olhar.
Queres um castelo feito de ar mas eu sou feita de terra e de sangue e de fogo e de memórias de outros dias que afinal foram apenas ar. Ar.
Em cada pedaço de mim, existe um pedaço de ti. Porque eu hoje sou o que me ajudaste a ser. Em cada lágrima, em cada sorriso, em cada gesto. Percebe-me a girar à tua volta e sente a certeza que eu sempre senti de que era a tua mulher.
Não se é mulher por qualquer razão. Ser mulher é saber que se encontra. Eu soube. Tu não…
de Estela Ribeiro
(doce... muito doce é o sabor que fica nos olhos ao ler este teu texto salgado... muito bonito amiga... mesmo muito bonito)

untitled by Tim Youles
Tantas vezes por aqui passo. Mas hoje este texto tão belo tocou-me. E a música bela escolhida a dedo. Obrigada por deixar a porta sempre aberta do teu café.
Afixado por: Kika em maio 20, 2005 03:43 AMUm texto muito bom! Uma estrutura excelente: um começo - parasidíaco; um meio - dúvida; fim - o fim e um recurso de estilo que me agrada bastante: a repetição da ideia chave de uns parágrafos para os outros. Parabéns!
Afixado por: Nancy Brown em maio 20, 2005 10:45 AMamei este texto. E tinha que vir de outras galáxias. A musica perfeita. Um momento branco e salgado em que fui nada, apenas olhos e ouvidos. Thanks for the poetry inside you.
Afixado por: Nina em maio 20, 2005 06:30 PMO sal essa palavra mágica, os corpos salgados,a magia da continuação de um texto extremamente belo, com uma fotografia excelente a ilustrá-lo , e uma música maravilhosa.
Parabéns,e, é por todos estes motivos que não deixo um dia de vir ao teu café.
Faltam-me palavras, agora parece que a pequena escuridão do meu peito se abre dando lugar á luz, escreve que eu preciso de te ler. parece que me redimo. um beijo grande isto está a fazer-me bem
Afixado por: lobo em maio 20, 2005 08:54 PMObrigada a todos pelas palavras sentidas! São elas que alimentam, também, a minha fonte interior de onde tudo vem...
Obrigada!
Nuno, não tenho palavras. A imagem é linda e a música maravilhosa. Só mesmo tu...
Estela.
Afixado por: Senhora das Estrelas em maio 21, 2005 11:41 AMAdorei! Muito bonito! Parabéns!
Bejinhos****
Caramba!!! Um tal amor merecia outro destino...
Não deixes esgotar esse teu talento. Já precisamos dele no dia-a-dia... Bjocas