junho 19, 2005

Diário da tua ausência – um mar de desilusão

Hoje pensei muito em ti, mais do que o habitual, confesso… nem sei bem porquê. Talvez o pôr-do-sol triste e encoberto me fizesse sentir saudades de dias mais azuis. Hoje estaria a pensar em ti mesmo junto a ti. Talvez pela desilusão. Ela está presente no meu olhar à medida que olha para tudo o que me rodeia, incluindo quando me olho ao espelho.

Agora dizes o meu coração ser duro como pedra? Engraçado Dalila… o meu coração não é pedra… é um deserto de areia seca gasta pelo corroer lento do vento. É mar salgado e escuro como as lágrimas que outrora tinha e agora secaram. O mar imenso de lágrimas que secou no meu olhar tornando-o um sitio perdido e abandonado. Um mar imenso de desilusão, um cemitério de barcos velhos afundados como o nosso amor.

Tudo me desilude e todos são desilusão. Começo por mim mesmo acredita. Pois eu mesmo já deixei de acreditar seja no que for. E à medida que escrevo mais uma página deste diário noto uma diferença… já não me dói tanto escrever como se me estivesse a esvair em sangue pela ponta da caneta. Estou insensível à dor e a esta tristeza que já se tornou aos poucos parte de mim, aos poucos que fui abandonando todos os sonhos. Tornei-me seco e amargo, admito… mas talvez seja esta a minha verdadeira natureza no acertar de todas as contas.

Limito-me agora a gerir o tempo da melhor maneira possível. Faço por ajudar outros e entrego-me de alma inteira a trabalhos filantropos para expiar todos os meus pecados. Na fútil esperança de que algures consiga gostar um bocadinho mais das pessoas feias que somos. Na parca hipótese de ainda nos salvarmos.

Desisto sabes…!?... O mundo lá fora é um lugar feio, habitado por pessoas feias como nós. Onde todos deambulam à procura de algo efémero e inútil como amor ou felicidade. Os vultos lá fora não devem ter razão. Os vultos dos nossos corações também não. Então fecha os olhos e dorme descansada e deixa os fantasmas saírem esta noite. Deixa-os passear pelas ruas à noite de mão dada com o nosso amor que morre. Deixa os medos… as lágrimas… as desilusões… abandona os fantasmas que temos… os fantasmas de náufragos neste nosso mar de desilusão.


de João Natal

night gosts
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Publicado por D_Quixote em junho 19, 2005 11:29 PM
Comentários

Adorei! Estou sem palavras!

Afixado por: Cientista em junho 20, 2005 08:19 AM

Vou começar por dizer que gostei e dizer também que qualquer reflexão sobre o que somos e o que fazemos não deve ser pretexto para penalizações. percebo a desilusão , mas acho também que é tempo de sermos o verbo presente conjugando o melhor que somos e temos, reconhecendo sempre a nossa inveja e mesquinhes um abraço

Afixado por: lobo em junho 20, 2005 11:21 AM

Saudades que tinha dos teus diários...João Natal. Os teus medos, tristezas e cansaços nesse mar de desilusão enchem-me os olhos de humanidade, de fragilidades. Identifico-me aqui inteira. Obrigado por mostrares tb a tua carcaça...somos todos náufragos da busca enqto vida. Beijo...Jeff Buckley au point.

Afixado por: Nina em junho 20, 2005 01:27 PM

olá! um grande abraço!

Afixado por: ccc em junho 20, 2005 06:05 PM

Que texto... repleto de uma grande beleza interior!

Afixado por: maria são miguel em junho 20, 2005 11:00 PM

Às vezes também penso em "ti"...
Sinto-me a fugir de mim... perco-me entre labirintos de palavras... inebrio-me em pensamentos obscuros...
Às vezes também me apetece desistir... Fechar-me entre quatro paredes... fugir do mundo...

E tu és verdadeiramente mágico...


Um abraço

Afixado por: Moon em junho 22, 2005 10:32 AM

Nunca perco os seus textos por estas bandas... Palavras que podiam fazer parte da estória de todos nós...
Gostei muito...

Afixado por: Nastenka em junho 22, 2005 11:16 AM

Nunca perco os seus textos por estas bandas... Palavras que podiam fazer parte da estória de todos nós...
Gostei muito...

Afixado por: Nastenka em junho 22, 2005 11:16 AM

olá João!! Venho-te dizer que basta, basta deste diário de ausências, de dor e de silêncios que se fundem com as noites mal dormidas... Basta de acordar a pensar em quem já não nos pertençe... Porque isso é motivo para, ao fim de um tempo, não regressar mais de um desespero... Eu próprio já vivi isso... E quando dei de mim, quase que já não conseguia regressar, nunca regressei de completo a mim - ainda sofro e escrevo mas estou quase.

Lembra-te dos teus amigos, da vida que possuis como ser humano, do mundo à tua frente.

Acho graça que as pessoas cheguem aqui e digam que gostam muito do que escreves, mas que não tenham a sensibilidade para te dizer isto... Seja quem fores, fica bem, lembra-te desta musica: Imagine

Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...

Imagine there's no countries,
It isnt hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
living life in peace...

Imagine no possessions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of men,
imagine all the people
Sharing all the world...

You may say I'm a dreamer,
but Im not the only one,
I hope some day you'll join us,
And the world will live as one

Não sei se ajuda, mas olha é o que te posso dizer, abraço!

Afixado por: David em junho 25, 2005 11:47 PM

sou eu outra vez pra te dizer que o meu amor de sempre chama-se também Dalila, Dalila Forte. POr isso é que achei piada e comentei.. Abraço..;)

Afixado por: David em junho 26, 2005 12:09 AM

Provavelmente terá visto o filme "Uma Mente Brilhante". Todos temos os nossos fantasmas...e eles NUNCA nos abandonam completamente, por mais que os exorcizemos. Resta-nos reaprender a viver com eles, reaprendendo a viver nós próprios. Restará sempre qualquer coisa, difusa e distante...temos apenas que saber ignorá-la e seguir em frente. Assim, e só assim talvez consigamos um dia ganhar o prémio Nobel...da felicidade.

Afixado por: João em julho 2, 2005 12:57 PM