novembro 29, 2003

A Mulher que Passa

A Mulher que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

de Vinícius De Moraes

"balcony"by André Brito

Publicado por D_Quixote em 03:54 PM | Comentários (7)

O homem da neve

É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.

de Wallace Stevens

(Tradução de Paulo Venâncio Filho )

Forest in snow
by Jacek M

Publicado por D_Quixote em 01:33 AM | Comentários (2)

O Rio

Eu vou atravessar o rio a deslizar
Que me separa de você
O tempo atravessa em meu lugar
E deixo pra depois o que eu tinha que fazer
O destino aceito sem dizer sim ou dizer não
Sem entender

E fica a sensação de saber exactamente porque menti
Eu sei de onde vim e para onde irei
Mas com você fico sem saber onde estou

Nós dois que sequer nos parecemos
E não cabemos num mesmo espelho
Mas nos olhamos toda manhã
A ferrugem mesmo pouca
Corrói os trilhos
As ruas nos atravessam
Sem olhar pro lado
Estou com você

de Ana Carolina (adoro esta mulher... ouvir?)

foggy sunrise
by Monique Dorgot

Publicado por D_Quixote em 01:09 AM | Comentários (2)

Soneto De Ébano

Soneto De Ébano

Mil olhos me miram, tão brilhantes,
Da face escura, de negro pintada.
Mil gélidas lágrimas a deixam molhada,
Oculta pelos brancos véus flutuantes.

E hoje, como tantas vezes antes,
Esvai-se de mim a vida, já cansada
De seguir esta linha amargurada,
Resistindo às dores lacinantes.

Continuam os olhos a mirar-me,
Durante horas me seguem, perscrutando.
Até na cama, onde me refugio,

A negra face insiste em assombrar-me.
E só o Sol, quente, despontando,
Afasta a noite, e seu olhar sombrio


de Pedro Gama (EL_Tor0)

(enviado por ele mesmo... obrigado Pedro pelas contribuições fantásticas que tens feito... confesso que tambem tenho passado pelo teu blog todos os dias...)

Publicado por D_Quixote em 12:47 AM | Comentários (0)

novembro 28, 2003

Soneto para Adriano

Fui menina um dia em teu olhar;
O seu brilho me elevava às estrelas
E me ensinava o coração a amar.
Como é bom recordar histórias belas,

Contos de fada lindos de encantar!
Ondas que deleitam almas ociosas,
Brisas que vão em direcção ao mar...
Eram fábulas reais e engenhosas!

Saudades desses tempos? Sim, imensas,
São memórias de um passado que é meu,
Momentos que eu vivi no mundo teu.

E hoje que numa mulher me tornei,
Não perdi o sentimento de infância,
Nao deixei de ser a tua criança!

(" O meu coração está cheio de amor por ti. Um amor que nunca morrerá, mesmo depois da morte do corpo..." Não esquecerei estas doces palavras, trago-as gravadas no coração)

de Teresa Sousa (enviado por Teresa)


Outro poema lindissimo dedicado a alguem que partiu... em nota anexa estão as palavras com que o pai dela, algum tempo antes de partir, se despediu... como se já antevesse o caminho a percorrer para largar esta vida e finalmente ser livre... algures... entre o amor e a saudade...

Publicado por D_Quixote em 12:35 AM | Comentários (2)

Crepúsculo

Cai a tarde, dentro e fora,
E agora, ao cair da tarde,
frio, caminho, por fora,
face estranha à tarde que arde
na hora que cai agora.
Adeus, tarde. Vou-me embora
antes que seja mais tarde.
Não quero ser leão covarde:
quando tem dentes, devora,
quando os não tem, geme e chora,
anjo falso que se inflora
à hora em que cai a tarde.
Oh não quero! Vou-me embora
antes que seja mais tarde.
Para quê sentir agora
se agora é a hora da tarde?
Não há nada que nos guarde,
nem defenda nem resguarde
do que na hora é outrora.
Chora, chora, chora, chora.
Não chores mais. Vai-te embora
antes que seja mais tarde.

António Gedeão, Movimento Perpétuo - 1956


enviado pela amiga Gelatina, que enviou assim que leu o poema anterior... bigada pelo apoio...

Publicado por D_Quixote em 12:20 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2003

Morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce lago
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má morte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
má fada me encantou e aqui fiquei
à tua espera... quebra-me o encanto!


de Florbela Espanca


Hoje estou muito triste... vi desaparecer um colega de infância... alguem que esteve lá à medida que eu crescia... e que cresceu comigo também... um jovem que viu a vida interrompida aos 25 anos, vitima de uma doença demasiado cruel... um cancro... sabem... eu queria te-lo visitado... queria ter estado lá para ele, mas o tempo, os afazeres mundanos, o desleixo... o descuido... acabei por não ir visita-lo na altura que ele mais precisava se calhar que eu lá fosse... sabem... isto faz-me pensar em muita coisa... em como a minha vida está errada, em como tenho que estabelecer a ordem hierarquica das minhas prioridades... antes que perca mais alguem, sem ter tido a oportunidade de lhe dizer... o quanto gostava dela...

hoje tenho muito a pensar...

Publicado por D_Quixote em 11:49 PM | Comentários (7)

Aço e Flor

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.


de Paulo Leminski

(este autor, do pouco que sei, dedicou-se muito ao estudo da cultura oriental, e à tradução de muita poesia desse mundo para o português... assim aproveito para vos dar a conhecer 3 filmes que vi este ano, e que marcaram pela positiva, sendo que os aconselho vivamente, pois cada um à sua maneira... são poesias da sétima arte, quadros a óleo na tela de cinema... a via da espada...)

Publicado por D_Quixote em 12:35 AM | Comentários (2)

Pai

Esses teus cabelos brancos
Fios de neve gélida e quente,
Não são ondas de um mar cadavérico,
Mas antes um conjunto de grandes vitórias,
Conquistadas ao luar de um doce amanhecer.

Essas marcas que a vida te deixa
São para mim o orgulho de momentos vividos,...
Esse teu olhar triste e cansado são a luz da esperança
Que ilumina as trevas do meu caminho.

O teu sorriso, baço e inerte,
É a minha alegria de crescer.
As tuas lágrimas são a minha força
Para lutar e vencer

(Quero que saibas que este poema é para ti minha alma companheira... amar-te-ei para todo o sempre)

por Teresa Sousa


Este poema lindo é da autoria da minha laranja metade, e é escrito e dedicado ao pai dela... um grande homem que tive o prazer e honra de conhecer e de ter como amigo... e que partiu muito recentemente para o "grande desconhecido"... a ele, onde que que estejas "magrito"... um grande abraço cheio de saudade...

Publicado por D_Quixote em 12:01 AM | Comentários (1)

novembro 26, 2003

Povo

Povo, onde é que há povo, na língua da casa?
No funeral do Carlos, na galinha , no ovo?
Povo onde é que há povo, no estádio?
Nos lábios que beijam a cerveja?!
No sangue do filho, na transconfusão da igreja?
Povo onde é que há povo?
Nos olhos dos cegos, nos ouvidos dos surdos,
nas pernas dos mancos, na boca dos mudos?
Povo onde é que há povo, se ainda há pouco o muito que havia era só de um que também não era do povo!
Povo que palavra mais tola, vazia, sem gente dentro,
Órfã de país, assim como da idéia,
povo na laje do sentimento.
Povo, povo, povo!
De que terão acusado o povo?
O que terá ele feito de tão mau?
Povo que és tão novo, como se ainda grávido de ti me visse,
Quem te instalou o software da velhice?
Que nobre bengala te votou ao silêncio!
Que reforma a tua, tão bem conduzida que não demos por ela!
Povo, olhar de janela posto no trânsito, golo de clube sem adepto a jogar fora, mulher de mala sem viagem.
Povo onde é que há povo sem que haja também a miragem de uma sua eleição, um povo que vota devotado na sua abstenção.
Povo onde é que há povo no povo de uma nação?
As bancadas desertas e um relvado lindo, um golo na baliza do povo.

de Miguel Patricio "el bacro" (enviado pelo próprio)

Que dizer deste poema? Eu pessoalmente adorei... hoje o meu café ficou um grande bocadinho mais rico... e um novo poeta brilhou no palco...
Até breve Miguel Patricio, espero que nos brindes com mais poemas de sobeja qualidade como este...

Friends in cafe

by Koos Goris

Publicado por D_Quixote em 12:58 AM | Comentários (7)

Nós

Nós

"Quem não quer vir, que não venha,
que o dó me faz perdoar
e persistir na Campanha.
Talvez,
quando eu já for percebido,
se arrependam,
e a troça então se lhes mude
num sorriso constrangido.

Não venham, que eu vou por eles
e gritam por minha boca
suas bocas,
fechadas, ou por vergonha,
ou por orgulho, ou por falta
de aquela fé que me arrasta.

Descansem!...
Se eu lá chegar, faz de conta
que quem chegou foram eles;


Sebastião da Gama, Serra-Mãe

(enviado por Gelatina, que tem um blog fantástico que recomendo... arranca montes de sorrisos até aos mais carrancudos... prometo...)

Publicado por D_Quixote em 12:39 AM | Comentários (2)

bar aberto...

Hoje, é um dia diferente, e uma jornada diferente pelas incursões no meu blog... finalmente o PoetryCafé começa a funcionar como eu gosto... com a vossa poesia... com as vossas sugestões...

Sim... porque a máquina do Karaoke está avariada, e o unico som que se ouve neste pequeno café, é o recitar de poesias no escurinho da noite, à luz do neon e das velas...

Eu sou um mero anfitrião que vai servindo a vossa poesia, com um café cremoso... os próximos dois posts, foram-me enviados pela clientela...

Sinto-me um sortudo feliz por ter clientes assim...

muito obrigado... voltem sempre...

agora... Bar aberto aos poetas e venha daí a poesia...!!!

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (2)

novembro 25, 2003

as minhas sinceras desculpas...

Peço desculpa... neste momento não estou a afixar poemas... mas porque está a dar na televisão algo de mágico... "i am Sam"... quem me conhece, sabe porque tanto me toca este filme... quando acabar, lá afixo alguma coisa... até já...

"vivemos numa sociedade espartana, sem escrupulos nem corações... aos mais atentos, nunca deixem de amar alguem só por ser diferente..." (um pequeno pensamento meu)

Publicado por D_Quixote em 11:55 PM | Comentários (4)

novembro 24, 2003

Um Beijo

Um Beijo


Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior...Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto...

de Olavo Bilac


The Kiss
Auguste Rodin

Publicado por D_Quixote em 11:39 PM | Comentários (5)

Ápice

O raio do sol da tarde
Que uma janela perdida
Refletiu
Num instante indiferente —
Arde,
Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje
Subitamente...

Seu efêmero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
— E não poder adivinhar
Porque mistério se me evoca
Esta idéia fugitiva,
Tão débil que mal me toca!...

— Ah, não sei porquê, mas certamente
Aquele raio cadente
Alguma coisa foi na minha sorte
Que a sua projeção atravessou...

Tanto segredo no destino de uma vida...

É como a idéia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou...


de Mário Sá Carneiro

Publicado por D_Quixote em 10:26 PM | Comentários (0)

He Wishes for the Cloths of Heaven

He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.


Desejo para os panos dos céus

Se tivesse eu os panos bordados dos céus,
Entremeados com luz dourada e de prata,
O azul e os panos não ofuscantes e escuros
Da noite e da luz e da metade-luz,
Eu espalharia os panos debaixo dos teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho somente os meus sonhos;
Eu espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés;
Pisa com cuidado porque pisas os meus sonhos.

de William Butler Yeats...

este é um poema lindissimo, retirado de um filme lindissimo que figura em lugar cimeiro na lista dos meus filmes preferidos... "Equilibrium"... a tradução é minha, sendo que peço antecipadas desculpas por qualquer imperfeição... fica o afincado convite a verem o filme... aliás... para quem ficou desiludido com o Matrix... na minha opinião muito pessoal... gostei muito mais deste... vá lá... espreitem!


Publicado por D_Quixote em 01:51 AM | Comentários (2)

Silêncio

Silêncio

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti e não me vês...
quantas vezes no livro que tu lês
meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa...Escuta!...Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!...Abre!Sou eu!...


de Florbela Espanca

Publicado por D_Quixote em 01:11 AM | Comentários (5)

novembro 23, 2003

Elegia das Águas Negras para Che Guevara

Elegia das Águas Negras para Che Guevara


Atado ao silêncio, o coração ainda
pesado de amor, jazes de perfil,
escutando, por assim dizer, as águas
negras da nossa aflição.

Pálidas vozes em prado procuram
O potro mais livre, a palmeira
mais alta sobre o lago, o barco talvez
Ou o mel entornado da nossa alegria.

Olhos apertados pelo medo
aguardam na noite o sol do meio-dia,
a face viva do sol onde cresces,
onde te confundes com os ramos
de sangue do verão ou o rumor
dos pés brancos da chuva nas areias.

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé;
cada palavra tua
faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos contigo
no coração em redor do fogo.

de Eugénio de Andrade em Poemas a Guevara (selecção e tradução de Egito Gonçalves - colecção Os Olhos e a Memória - Editora Limiar - 1975)


Publicado por D_Quixote em 12:11 PM | Comentários (4)

novembro 22, 2003

Amor eterno

AMOR ETERNO

Impedimentos não admito para a união
de corações fiéis: amor não é amor
quando se altera ao perceber alteração,
ou cede em desertar quando o outro é desertor.

Oh, não ! Ele é um farol imóvel tempo afora,
que as tempestades olha e nem sequer trepida;

é a estrela para as naus, cujo valor se ignora,
mau grado seja a sua altura conhecida.

O amor não é joguete em mãos do tempo, embora
face e lábios de rosa a curva foice abata;

não muda em dias, não termina numa hora,
porém, até o final das eras se dilata.
Se isto for erro e o meu engano for provado,
Jamais terei escrito e alguém terá amado.

de William Shakespeare

(enviado por Ana Duarte... uma boa amiga com muita paciência para me aturar todos os dias... a ela um grande obrigado pelos poemas que envia...)

Publicado por D_Quixote em 07:04 PM | Comentários (2)

imbranato - II

bem... e para quem não percebe italiano... a minha melhor tentativa de tradução...

LOUCO
(imbranato)

Tudo começou por um capricho teu,
Eu não ligava... era só sexo.
Mas o sexo é uma atitude
Como a arte em geral,
E talvez eu tenha entendido e estou aqui.

Desculpa, sabes, se tento insistir,
torno-me insuportável, eu sei...
Mas amo-te... amo-te... amo-te...
É engraçado... vá lá, é antiquado, mas amo-te...

E desculpa se te amo e se nos conhecemos
Há dois meses ou pouco mais.
E desculpa se não falo baixo,
Mas se não grito, morro.
Não sei se sabes que te amo.
E desculpa-me se rio, me entrego ao embaraço,
Olho pra ti fixamente e tremo
À idéia de te ter ao meu lado,
E me sentir somente teu,
E estou aqui e falo emocionado,
E sou um louco!
E sou um louco.

Olá... como estás?
Pergunta inútil!
Mas o amor torna-me previsível.
Falo pouco, eu sei... e estranho,
Será o vento, será o tempo... será... fogo!

E desculpa se te amo e se nos conhecemos
Há dois meses ou pouco mais.
E desculpa se não falo baixo,
Mas se não grito, morro.
Não sei se sabes que te amo.
E desculpa se rio, me entrego ao embaraço,
Olho pra ti fixamente e tremo
À idéia de te ter do meu lado,
E me sentir somente teu,
E estou aqui e falo emocionado,
E sou um louco!
E sou um louco.

Eu, sim.
Ah... mas amo-te...

lindo... não é?... ouçam a musica e depois digam-me alguma coisa...

Publicado por D_Quixote em 06:21 PM | Comentários (4)

imbranato

È iniziato tutto per un tuo capriccio
Io non mi fidavo… era solo sesso
Ma il sesso è un'attitudine
Come l'arte in genere
E forse l'ho capito e sono qui

Scusa sai se provo a insistere
Divento insopportabile
Ma ti amo… ti amo... ti amo
Ci risiamo… vabè, è antico, ma ti amo

E scusa se ti amo e se ci conosciamo
Da due mesi o poco più
E scusa se non parlo piano
Ma se non urlo muoio
Non so se sai che ti amo
E scusami se rido, dall'imbarazzo cedo
Ti guardo fisso e tremo
All'idea di averti accanto
E sentirmi tuo soltanto
E sono qui che parlo emozionato
E sono un imbranato!

Ciao..come stai?
Domanda inutile!
Ma a me l'amore mi rende prevedibile
Parlo poco, lo so… è strano, guido piano
Sarà il vento, sarà il tempo, sarà...fuoco!

E scusa se ti amo e se ci conosciamo
Da due mesi o poco più
E scusa se non parlo piano
Ma se non urlo muoio
Non so se sai che ti amo
E scusami se rido, dall'imbarazzo cedo
Ti guardo fisso e tremo
All'idea di averti accanto
E sentirmi tuo soltanto
E sono qui che parlo emozionato
E sono un imbranato!

de Tiziano Ferro

clicar aqui para fazer download desta musica linda e ficar a perceber porque afixei o lindo poema que é a letra...

Publicado por D_Quixote em 06:08 PM | Comentários (3)

novembro 21, 2003

vaso partido

O meu coração era já só um vaso velho,
sem flores ou vida...
Um ser inanimado.
Partido com o tempo
e envelhecido com as partidas.
Gasto e rachado pelo passar dos dias,
sem mais raizes a crescer,
ou vida a esperar,
sem esperança,
nem futuro...
sem nada...
...só passado.
Galhos secos no pó revirado da terra seca,
barro em cacos cheio de vida morta,
pedra e folhas secas...
uma ruina...

Tu vieste...
como uma semente de nada,
fruto do acaso,
força da natureza,
como uma erva daninha, que pega e cresce,
contra a vontade de tudo e todos...
contra a própria vontade da terra morta que te acolheu...
Vingaste...
cresceste...
apoderaste-te lentamente de mim...
envolvendo a raiz do teu ser em todo o meu coração,
até que a terra que o enchia,
não se distinguia mais da raiz que lá puseste.
E cresceste triunfante
no escombro do meu outrora vaso partido,
tornaste-te a raiz que agora o segura
a flor que o embeleza...
a vida que ele tem..
e não há maneira de te mais arrancar,
sem o levar junto
partido...


"vaso partido"
de João Natal 01/07/03

Publicado por D_Quixote em 10:57 PM | Comentários (0)

Há palavras que nos beijam

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

de Alexandre O'Neil


Lovers in Moonlight by Marc Chagall

Publicado por D_Quixote em 01:03 AM | Comentários (5)

António Aleixo Este livro que vos deixo...

I
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

II
Após um dia tristonho,
de mágoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim todos os dias.

III
Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria

IV
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz.

V
Casado que arrasta a asa
à mulher deste e daquele,
merece que tenha em casa
outro homem em lugar dele.


quadras retiradas da obra: "António Aleixo Este livro que vos deixo..."

verdades de facto, escritas de forma simples por um homem igualmente simples... António Aleixo era um homem sem estudos, quase analfabeto dizem, contudo não se inibiu de se expressar na poesia, sem complexos e de coração aberto... aqui lhe fica o meu tributo...


Publicado por D_Quixote em 12:10 AM | Comentários (2)

novembro 20, 2003

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;

Ó benignas manhãs!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

Voltai, retrocedei, formosos dias:
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;

E ao ver-te sentirá minha alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.


de Bocage

Rainy Walk por Dubravko Grakalic

Publicado por D_Quixote em 12:55 AM | Comentários (1)

novembro 19, 2003

Dor visceral

Dor visceral

Não sei qual é a distância, não vejo qualquer pensamento.
Há uma luz que ao fundo vislumbro. Há uma fragância.
Esse cheiro que me corrompe, que me seca a boca.
Farol que me guia os passos, me amordaça a palavra.
Sou um bicho perguiça com vontade de vida,
o espelho concavo da minha miséria.
Sou um filho de puta.

Sou gaivota de altos gritos
Falcão de voos a pique
Sou mar azul sou verde
Sou onda que rebenta em abismos
Sou corda sou trapo sou pão.


de Guida R. Pires (afixado com autorização da mesma)

Este é um poema fantástico que li numa das minhas digressões por alguns blogs que valem bem a pena de serem visitados, gostei tanto dele que tinha de o partilhar aqui... no meu pequeno café... espero que gostem!

Publicado por D_Quixote em 11:41 PM | Comentários (2)

DO INTENSO E DO SUSPENSO

DO INTENSO E DO SUSPENSO

I
Eu seguia-te nos mistérios, nesse enigma que és tu.
Bebia da tua presença o arrebatamento, a constância da
dor, a tristeza de quem muito contempla e nada ou
pouco faz. Nada disto se explica. Por isso sei que por
mais que viva haverá sempre encanto entre nós. Uma
ternura indizível, desejo nú e frio.

II
Eu seguia-te. Achava que isto de estar apaixonada era
coisa de partir à descoberta do que somos e não somos
e no que nos tornamos só porque um sorriso nos prende
e a vida se nos solta. "Adoro-te"- dizias, mergulhando
o rosto no meu cabelo ao sol. E eu ria, achava
estranho que alguém me pudesse dizer isso. Adoro-te.
Sussurro, protecção. Era tudo tão bom quando o meu
corpo molhado caía, exausto, na toalha. Tudo tão leve,
dourado, trazendo à memória os instantes de um
segredo. Lábios colados à pele, pela sombra recortada
das árvores.

III
O segredo eras tu. Guardava-te como partitura
preciosa, inacessível. Tremia se me tocavas, se
suspeitava que tudo era possível. Ainda hoje não
resisto a perguntar: que domínio aquele? Que poder?
Como então, é-me difícil encontrar resposta lógica e
verosímil. Talvez seja menos penoso continuar a achar
que fixar-te mais de 5 segundos era um esforço
invariável para atingir um limite, o infinito. Esse
fascínio que exerces rouba ao mundo real, quase
aniquila, abandona e segue viagem. Sempre foi assim.
De cada vez que desejei ter força para ser infinito.
Prolongar-me em ti dizendo "Vem..."


de Anna Tomás

Publicado por D_Quixote em 11:34 PM | Comentários (1)

novembro 18, 2003

Semântica Electrónica

Semântica Electrónica

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!


de Vitorino Nemésio

(eu sei, eu sei... devem tar a pensar... "o que lhe deu??"... mas hoje tive de voltar ao emprego, e o "stress-do-primeiro-dia-de-trabalho-após-umas-férias-relaxadas" atacou-me...)

Publicado por D_Quixote em 12:47 AM | Comentários (0)

Os anéis do meu cabelo

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Diz à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.

Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto,
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto;

Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo,
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

de Antônio Botto

cantado por Mariza em Fado Curvo, um album fantástico a descobrir...


Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (1)

novembro 17, 2003

As Palavras são o Ofício do Poeta

Quanto a mim gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos do Verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como os seixos, rugosas como o pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Foi com essas palavras que fiz os poemas. Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminoso da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante. As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, ás dunas, sem vergonha, como se os merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias. As palavras são a nossa salvação.

de Eugénio de Andrade

(este pequeno texto lindissimo foi-me dado por uma amiga muito querida no dia em que me despedi dela para partir para outros desafios... era, para alem de amiga, minha professora de português... tenho procurado desde então as minhas palavras... as palavras que mais gosto para compor a minha paleta de cores com que pinto poemas... a ti Carla Leal... a unica palavra que tenho pelo gosto que tanto cultivaste... obrigado...)

Publicado por D_Quixote em 11:29 PM | Comentários (5)

Cúmplices

Cúmplices

Fica na noite um cheiro a mar
fica na noite o teu som murmurar
e comigo apenas o gesto desata
o livre abandono
na curva de um sorriso

perco segredos em teu caminho
deixo pegadas no chão de azul
e contemplo o resto do dia
no abraço que me dás

encontro o vento que me diz
as linhas do escuro penetrante
na luz do rosto que adivinho
sem olhar para trás

há qualquer coisa que domina
qualquer toque que desarma a incerteza
que mostra o tempo parado
num silêncio de beleza.


de Anna Tomás

Publicado por D_Quixote em 10:36 PM | Comentários (0)

tudo o que resta de ti

“tudo o que resta de ti”


Olho à volta
Tudo é vazio que me persegue
Olhos vazios
Sorrisos vazios
Borrões vagos dos teus olhos frios...
Aguarelas negras de carvão
Papel de carta molhado com lagrimas
Uma boneca dentro de um frasco de vidro
Ecos
Perfume
Mágoa
E tantos porquês...
Tudo o que resta de ti
É o nada em que me tornei...
O grande nada que sou...

João Natal 01/09/03

"tired" by Carl Sills

Publicado por D_Quixote em 12:43 AM | Comentários (10)

Desespero

Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.


de José Carlos Ary dos Santos (enviado pela Mónica Silva)

Publicado por D_Quixote em 12:32 AM | Comentários (0)

de volta

Olá amigos...

já estou de volta... ainda tive a sorte de ver alguma neve na Serra da Estrela... não escrevi nada no meu pequeno bloco de notas, mas trago imensa poesia no coração, e muitas palavras na cabeça... bem... de volta ao vicio... confesso que custou imenso estar longe do meu pequeno café, que apesar de tudo continuou aberto e chegou à módica barreira dos 1000 clientes...

a todos um grande obrigado... e continuem a vir... pela poesia, e pelo café...

um abraço
Nuno

Publicado por D_Quixote em 12:27 AM | Comentários (2)

novembro 13, 2003

a gerência avisa:

A Gerência avisa:

Caros amigos, todos os que apreciam poesia e um bom café, até domingo não haverá mais posts... vou tirar o fim de semana na Serra da Estrela com os dedos cruzados pra que neve...

as portas do café ficam abertas sempre (como avisa no letreiro) e espero que continuem a passar por cá... aproveitem para reler poemas que tenham gostado, e se possivel... enviem os vossos próprios poemas para eu afixar...

ahh... e não se esqueçam de passar pela BlogA!?

jinhos...

Publicado por D_Quixote em 04:48 PM | Comentários (3)

O Sentimento dum Ocidental

O Sentimento dum Ocidental


I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

de Cesário Verde

Publicado por D_Quixote em 04:43 PM | Comentários (0)

eu, tu e um adeus

Sem rancores
sem lágrimas
sem amanhãs
sem nuvens
sem ódios
sem porquês...
Eu, tu e um adeus
num sorriso
aberto
franco
alegre
quase feliz!...
Olhar fixo
seco
vazio mas confiante
os dias são meus.
Ontem, hoje e sempre
Eu, tu e esse adeus!...

de Maria Beatriz dos Santos Ferreira em "Reflexos"

Publicado por D_Quixote em 11:51 AM | Comentários (2)

novembro 12, 2003

O Porto é só...

O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde,
forrar-me de silencio
e procurar trazer à tona algumas palavras
sem outro fito
que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros
a insurreição do olhar.

O Porto é só esta atenção empenhada
em escutar os passos dos velhos
que a certas horas atravessam a rua
para passarem os dias no café em frente
os olhos vazios,
as lagrimos das crianças de S. Vitor
correndo nos sulcos da sua melancolia.

O Porto é só a pequena praça
onde há tantos anos aprendo metodicamente
a ser arvore
procurando assim parecer-me com a terra obscura
do meu proprio rosto.

Desentendido de ansiedade
olho na palma da mão
os residuos da juventude
e dessa paixão sem regra
deixarei aqui uma petala
pois aqui por ser tão branca.

de Eugénio de Andrade

Mais um poema lindissimo sobre a minha cidade lindissima...
ouvir este poema...! e ver com os próprios olhos para acreditar...!


Publicado por D_Quixote em 05:54 PM | Comentários (8)

Miramar

Miramar

Acender um cigarro na praia, proteger
o difícil estertor da pequena chama. Anular
o vento na manga do teu casaco. Reter
preso entre os dedos o princípio breve
dessa efémera combustão.

de Inês Lourenço

Publicado por D_Quixote em 05:32 PM | Comentários (1)

A Força Que Impele Através do Verde Rastilho da Flor

A Força Que Impele Através do Verde Rastilho da Flor


A força que impele através do verde rastilho a flor
impele os meus verdes anos; a que aniquila as raízes das árvores
é o que me destrói.
E não tenho voz para dizer à rosa que se inclina
como a minha juventude se curva sob a febre do mesmo inverno.

A força que impele a água através das pedras
impele o meu rubro sangue; a que seca o impulso das correntes
deixa as minhas como se fossem de cera.
E não tenho voz para que os lábios digam às minhas veias
como a mesma boca suga as nascentes da montanha.

A mão que faz oscilar a água no pântano
agita ainda mais a areia; a que detém o sopro do vento
levanta as velas do meu sudário.
E não tenho voz para dizer ao homem enforcado
como da minha argila é feito o lodo do carrasco.

Como sanguessugas, os lábios do tempo unem-se à fonte;
fica o amor intumescido e goteja, mas o sangue derramado
acalmará as suas feridas.
E não tenho voz para dizer ao dia tempestuoso
como as horas assinalam um céu à volta dos astros.

E não tenho voz para dizer ao túmulo da amada
como sobre o meu sudário rastejam os mesmos vermes.

de Dylan Thomas
In, A Mão ao Assinar Este Papel, tradução de Fernando Guimarães

Publicado por D_Quixote em 01:40 PM | Comentários (0)

esquece-me

Esquece-me!
Enterra-me no teu coração
junto a tudo o resto que está morto,
mas leva-me flores de vez em quando,
fala comigo quando quiseres,
quando sentires saudade...
...ajoelha-te no mármore frio da minha campa,
desliza os dedos na minha foto esmorecida,
põe um lírio pálido sobre mim,
verte uma lagrima
e parte de novo...
volta para a tua vida...
deixa-me aqui onde pertenço...
numa outra vida,
num outro tempo,
antes do nosso adeus,
antes de teres partido...
antes...
enterra-me no teu coração...
esquece-me!
Eu já morri para ti
e os mortos não amam,
são apenas recordações
a quem levamos flores de vez em quando...
esquece-me!

João Natal
02/05/03


Publicado por D_Quixote em 10:37 AM | Comentários (2)

Canção tão simples

Canção tão simples

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?


de Manuel Alegre (poeta e deputado... goste-se ou não se goste... um homem notavel)

Publicado por D_Quixote em 01:13 AM | Comentários (1)

Poesia-Orgasmo

Poesia-Orgasmo

De silabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmurio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
a poesia o que tem de ser é orgasmo.

José Carlos Ary Santos

Publicado por D_Quixote em 01:02 AM | Comentários (0)

novembro 11, 2003

o limite diáfano

o limite diáfano


Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


de Sebastião Alba

Publicado por D_Quixote em 12:26 AM | Comentários (0)

Em teus olhos o Verão...

Em teus olhos o Verão...

Em teus olhos as estrelas do mar
Tens um céu de areia molhada,
Onde a praia é sempre abraçada
Na força das ondas a rebentar.

Em teus olhos vejo o sol a brilhar,
Tarde de Verão ensolarada.
Os dois na Foz numa caminhada
Ou sentados juntos a conversar.

E tudo melhora quando sorris,
Tudo fica bem melhor junto a ti
O tempo escapa em liberdade

E eu assim fico sorrindo feliz,
Porque desde que eu te conheci
Sei já o que é a felicidade...


de João Natal
07/11/2003


Publicado por D_Quixote em 12:18 AM | Comentários (8)

novembro 10, 2003

outra vez a BlogA!?

Eu sei... eu sei... falta o tempo para tudo a que me proponho... confesso que precisava de dias maiores e noites mais claras... mas o BlogA!? tem-me retirado algum do meu tempo... é engraçado que ao ver as horas que passei na net à procura de ideias para o logotipo da pagina me apercebi do quanto já tinha abraçado o projecto, e de como o meu entusiasmo já lá ia...

hoje vou afixar uns bons poemas... e preocupo-me de novo amanha com a BlogA!?... este viciosinho... heheheheh

Publicado por D_Quixote em 11:57 PM | Comentários (3)

novembro 09, 2003

BlogA!?

Ok... apesar do vicio da poesia, dei mais um valente passo em frente, e assumi de vez o vicio do Blog... assim, aderi e duas simpáticas associações... a BlogA!? Blogólicos Anónimos, que é um projecto pioneiro na ajuda dos agarradinhos aos blogs como eu... e a Blogolatros Anónimos, uma pagina do mesmo genero para os irmãos do outro lado do Atlantico... porque toda a ajuda conta... e porque o vicio é maior que as virtudes... aqui fica a BlogA!?... espero que abra em breve as sessões de terapia que eu ando bem necessitado...

Publicado por D_Quixote em 11:38 PM | Comentários (0)

novembro 08, 2003

ninguém meu amor

ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

de Sebastião Alba... o "poeta vagabundo"... um dia fiquei a conhecer a poesia de Sebastião Alba num artido da revista Publica (suplemento do jornal Publico ao Domingo), e poucas coisas me tocaram tanto como a vida deste homem, pouca coisa me chocou, emocionou, ao ponto mesmo de chorar ao ler o que li... é uma vida triste... uma vida bonita... mas sem duvida uma vida uníca, de um homem uníco, um poeta uníco...
Não consegui encontrar esse artigo... mas aqui podem ler um pequeno resumo da sua vida... aconselho vivamente...


Publicado por D_Quixote em 01:23 AM | Comentários (8)

O fogo que na branda cera ardia,

O fogo que na branda cera ardia,

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.

de Luís de Camões (talvez a face mais conhecida da poesia lusa...)


Publicado por D_Quixote em 12:43 AM | Comentários (0)

novembro 07, 2003

Dom Quixote

Já não há mais moinhos de vento
doce Dulcineia;
a minha loucura passou.
Já não há mais lugar para mim neste mundo
pois nem mais no teu coração tenho lugar.
Os teus olhos são doces
mas as tuas palavras amargas;
volta lá para o teu Sancho Pança!
Vai em frente no tempo
que o tempo não pára!...
...e quando pára
é só para mim...
Já não há mais moinhos de vento,
gigantes imaginários,
problemas a ultrapassar.
Venci-os a todos à medida que me derrotava,
venci-os para te ter...
Mas rendi-me ao destino,
à evidencia,
esse escudeiro traidor
que nos dá uma espada torta
para combater a vida,
o duelo...
...volta lá para o teu Sancho Pança!
volta lá...!


de João Natal


Publicado por D_Quixote em 07:43 PM | Comentários (1)

Nem um dia

Nem um dia

Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você,
Eu sem você não vivo
Um dia triste
Toda fragilidade incide
E o pensamento lá em você,
E tudo me divide

Longe da felicidade
E todas as suas luzes
Te desejo como ao ar
Mais que tudo,
És manhã na natureza das flores

Mesmo por toda riqueza
Dos sheiks árabes
Não te esquecerei um dia,
Nem um dia
Espero com a força do pensamento
Recriar a luz que me trará você.


E tudo nascerá mais belo,
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris.

de Djavan... ouvir esta musica de sonho

Publicado por D_Quixote em 12:52 AM | Comentários (0)

Aconteceu-me

Aconteceu-me

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

de Almada Negreiros
Publicado em Almada: O Escritor - O Ilustrador, 1993


Almada Negreiros, "Auto-Retrato C/ Citações", Desenho, 1948, FCG


Publicado por D_Quixote em 12:20 AM | Comentários (0)

Cavalo à solta

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

de José Carlos Ary dos Santos (enviado pela amiga Mónica Silva "Mó")

Publicado por D_Quixote em 12:01 AM | Comentários (1)

novembro 05, 2003

Lágrimas

Ela chorava muito e muito, aos cantos,
Frenética, com gestos desabridos;
Nos cabelos, em ânsias desprendidos,
Brilhavam como pérolas os prantos.

Ele, o amante, sereno como os santos,
Deitado no sofá, pés aquecidos,
Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
Sorria-se cantando alegres cantos.

E dizia-lhe então, de olhos enxutos:
- «Tu pareces nascida de rajada,
«Tens despeitos raivosos, resolutos;

«Chora, chora, mulher arrenegada;
«Lacrimeja por esses aquedutos...
«Quero um banho tomar de água salgada».

de Cesário Verde
Lisboa 1874

(lindo, cínico, trocista, moderno... fantástico mesmo este poema do Cesário... foi mesmo um dos grandes mestres da poesia portuguesa, apesar da sua não muito longa carreira como poeta, findada pela sua morte prematura com tuberculose)

Publicado por D_Quixote em 12:27 AM | Comentários (4)

novembro 04, 2003

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

(enviado hoje mesmo pela minha amiga Mónica Silva)

Publicado por D_Quixote em 11:54 PM | Comentários (3)

novembro 03, 2003

Identidade

Identidade

Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Tem maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.


de Miguel Torga

Publicado por D_Quixote em 01:04 AM | Comentários (0)

Tira a máscara. Escreve

Tira a máscara. Escreve
Com lágrimas teu rosto:
Descansa numa lágrima que desça
Contigo à Ilha, ao sol-posto,
E lentamente cresça
Como o avião no horizonte
Até chegar a mim, eu que lágrimas meço:
E a viseira da paz em ti desponte.
Faz-me isto, se o mereço!

Levanta devagar teu corpo leve e fino
Como o fio de som no pássaro calado:
Enquanto teço este hino
Fico mais descansado:
Porque eu sou o avião que zumbe e tu meu pólen,
Eu pássaro também que de ti, flor, revive:
Chora-me asa caída como folha no parque,
Asa de bimotor sem ti, que a jacto voamos.

Lisboa, 4.6.1973
de madrugada

de Vitorino Nemésio

Publicado por D_Quixote em 12:53 AM | Comentários (0)

Bom dia anjo

Em lençóis brancos você dorme
E eu em meu canto te admiro
Em teu descanso você brilha
Nos teus encantos meus suspiros

Não acorde ainda, seja meu anjo
Guarde minha vida embaixo
De teus lençóis brancos
Sonhe melodias e acorde cantando
Deixe que o dia siga teus planos
Os teus planos...

Quando acordar, bom dia!
A madrugada vem te olhar tranqüila
E vai avisar o dia
Que pode te acordar, bom dia anjo!

Quando acordar, bom dia!
A madrugada vem te olhar tranqüila
E vai avisar o dia
Que pode te acordar, bom dia anjo!

Bom dia anjo!


de Jair Oliveira (ouvir esta musica fabulosa)

Publicado por D_Quixote em 12:37 AM | Comentários (0)